Depois de um álbum como KALI, lançado em 2025, voltar às mesmas composições pode parecer, à partida, um exercício de repetição. No caso de Ptolemea, The Antfarm Session prova precisamente o contrário. As músicas são, maioritariamente, as mesmas, mas a forma como chegam até nós é suficientemente diferente para lhes dar uma nova leitura.
Gravado ao vivo no Antfarm Studio, na Dinamarca, o EP The Antfarm Session reúne seis temas de KALI — “Gaivota”, “Aqui, Ali, Acolá”, “Guilhotina”, “Breathe”, “Kura” e “Kali” — numa abordagem acústica e muito mais próxima. O resultado distancia-se naturalmente da dimensão sonora do álbum original, onde a bateria, o peso instrumental e toda a atmosfera que envolvia as composições em 2025 deixam de ter o mesmo protagonismo. No centro está agora a voz de Priscila Da Costa, vocalista dos Sinistro desde 2023.
E essa é talvez a principal razão para ouvir esta sessão. Quem conhece KALI vai reconhecer imediatamente as músicas, mas vai encontrá-las num contexto diferente. Sem a mesma densidade instrumental, tornam-se mais evidentes as melodias, os detalhes das composições e, sobretudo, a interpretação vocal. Há uma maior proximidade, permitindo que a componente emocional das canções se manifeste sem depender da intensidade e do arranjo original. Na verdade, aquilo que senti, pessoalmente, foi precisamente a ideia de que a música mais “despida” permite ao ouvinte sentir de forma plena o peso das palavras e a sua interpretação por parte da Priscila.
A gravação no Antfarm Studio acrescenta também um contexto particularmente interessante. O espaço é dirigido por Tue Madsen, produtor e engenheiro dinamarquês com um currículo que inclui trabalhos com alguns pesos-pesados como Rob Halford e Meshuggah. No caso de Meshuggah, Madsen esteve envolvido na gravação e mistura de The Violent Sleep of Reason, enquanto, nos trabalhos de Halford, surge creditado na mistura dos seus projetos a solo.
De facto, toda a experiência de The Antfarm Session vive destas particularidades e equilíbrio: há muito menos elementos a preencher o espaço sonoro e, por isso, cada detalhe ganha importância. A abordagem mantém as gravações orgânicas e próximas, sem procurar recriar artificialmente a dimensão de KALI.
O grande destaque, na minha ótica, vai para “Kura”, que traz consigo a nostalgia, o confronto com o passado, e cuja própria voz e o tom grave da guitarra acústica estão alinhados com a atmosfera que a música pretende transmitir. Como tal, creio que esta faixa se perfila como uma fiel síntese do que este novo EP engloba. Contudo, o ex-libris de todo o álbum é, inevitavelmente, o seu início singular: os primeiros dois minutos, onde Priscila apresenta, corajosamente, o seu tributo a Amália Rodrigues, com uma interpretação irrepreensível de “Gaivota” à capela.
É impossível, naturalmente, ignorar o percurso de Priscila. A experiência adquirida em diferentes projetos, incluindo os mais que consagrados Sinistro, ajuda a enquadrar uma artista que sempre demonstrou capacidade para explorar diferentes dimensões da sua voz. Ainda assim, Ptolemea possui uma identidade própria, e The Antfarm Session reforça essa personalidade. No entanto, posso avançar desde já que acho difícil que os ouvintes regulares de Sinistro não apreciem esta nova versão da Priscila.
Há, claro, coisas que se perdem. Quem procura neste lançamento a força rítmica, a bateria e a atmosfera mais pesada de KALI não vai encontrar exatamente a mesma experiência. Mas essa não é a intenção deste EP. Comparar diretamente os dois registos à procura de qual é melhor seria limitar o propósito desta sessão: uma abordagem diferente, as mesmas músicas e uma Ptolemea que, desta vez, nos deixa ouvir ainda mais claramente aquilo que já estava presente em KALI. É claramente um registo que merece ser adquirido em formato físico e que se destaca pela sua singularidade e peculiaridade.

