Há estreias que procuram simplesmente apresentar uma banda ao mundo; outras tentam estabelecer desde logo uma identidade própria. All That, álbum de estreia dos norte-americanos Godpreya, parece querer fazer as duas coisas.
O quarteto aposta em uma combinação de metal alternativo, elementos progressivos, death metal e metalcore, dando forma a uma atmosfera sombria, densa e, por vezes, cinematográfica. Para além da agressividade e do peso instrumental, a banda explora diferentes dinâmicas, incorporando passagens melódicas e momentos de maior introspeção que acrescentam profundidade e diversidade à sua identidade musical como podemos notar na ótima faixa de abertura “Can?!”
Já na segunda faixa, “Blocking Troops”, encontramos uma diversidade de influências que remetem ao nu metal do final dos anos 90, com uma atmosfera de contornos industriais cheio de groove, cruzada com uma abordagem mais moderna e brutal. Uma combinação que preserva a identidade própria da banda e que, graças à sua intensidade e dinâmica, nos conquista progressivamente a cada segundo da música.
A identidade visual e conceptual também merece atenção. Os Godpreya apresentam-se como uma banda mascarada, associada à narrativa de quatro almas perdidas que regressam a um mundo irreconhecível, presas em corpos monstruosos e sem memória de quem foram. É uma premissa que combina bem com a atmosfera inquietante que procuram criar.
Em “Cage”, percebemos como a banda consegue equilibrar peso e melodia de forma coesa e envolvente. Há uma maturidade surpreendente para um álbum de estreia, revelando um trabalho cuidadoso, em que cada detalhe parece ter sido pensado para valorizar a composição e reforçar a identidade dos Godpreya enquanto banda.
Já “Muse of Flame” revela uma faceta mais melódica, sem abandonar toda a brutalidade instrumental, com riffs marcantes e um final emocionante e sentimental. “Death & Poverty” começa bem , mas honestamente não nos cativou tanto quantos as outras.
E é disto que se trata um álbum completo e todas as suas nuances, e quando chega “Map of Scars” uma das minhas favoritas que realmente merece destaque, abordando as marcas emocionais deixadas pelo passado e a difícil tarefa de aceitar as próprias feridas. É uma composição que parece representar bem o lado mais introspectivo do álbum, contrastando com os momentos mais agressivos.
“Push the Play” soa como um encontro entre a sonoridade dos primeiros álbuns do Avenged Sevenfold e a intensidade característica dos Slipknot. Uma combinação que evidencia muito da identidade da banda equilibrando agressividade, peso e uma energia contagiante.
O disco encerra com uma versão de “Bleed the Freak”, dos Alice in Chains. Uma escolha interessante, sobretudo porque permite perceber como os Godpreya procuram transportar uma referência do grunge e do metal alternativo para o seu próprio universo sonoro, em vez de simplesmente reproduzir a gravação original, finalizando muito bem um disco que deverá despertar o interesse de quem acompanha o metal alternativo contemporâneo e gosta de propostas que cruzam a agressividade do metalcore com a densidade do metal alternativo e a herança do metal dos anos 2000.
Uma estreia interessante, com personalidade e espaço para crescer. Os Godpreya ficam no nosso radar.

