Existem bandas que demoram algum tempo a definir uma identidade e a encontrar a sua própria sonoridade. Os INSVLA não são uma delas. Formados em 2023, em Lisboa, por Sienna Sally (voz), Mário Lopes (guitarra) e Pedro Antunes (piano e teclas), o trio chega ao álbum de estreia, intitulado AVIR, com uma linguagem já delineada: assente no domínio do metal progressivo e atmosférico, tendo variados momentos eletrónicos, como também acústicos, cujos arranjos trabalhados e intencionais saltam ao ouvido no decorrer de todo o álbum.
Desde os primeiros singles lançados ao longo dos últimos anos, ficou claro que a banda não se limita somente à componente sonora. Existe uma preocupação consistente com a dinâmica conceptual que contribui para uma identidade mais ampla. AVIR surge precisamente como a consolidação dessa abordagem, perfilando-se como o primeiro retrato completo do universo que os INSVLA têm vindo a desenvolver. Digo isto, não só devido à atmosfera e viagem emocional e criativa com que a banda brinda, de forma intencional, os seus ouvintes, mas sobretudo pela forma como o faz.
A trave mestra do álbum e a forma como este evoluirá é percetível desde o seu início, isto é, no seu prelúdio “The Dive” que abre o cenário e instala o peso atmosférico. A progressão é gradual, com atenção ao detalhe e à construção de tensão, estabelecendo o tom que marca todo o projeto. Ao longo das faixas, a banda trabalha sobretudo através de secções que alternam entre momentos mais contidos e que, posteriormente, evoluem para secções de maior intensidade. Daqui em diante, as músicas e as respetivas passagens são bem conseguidas, com transições naturais que fazem com que cada um de nós, que embarca nesta trilha sonora, entenda as mudanças de faixa de forma subtil e faça também parte da sua história e narrativa, algo presente, por exemplo, no interlúdio a meio do álbum “The Drowning”.
O resultado geral aponta para um trabalho focado na criação de ambiente e na exploração emocional, como já tive oportunidade de frisar, mais do que em estruturas imediatas ou fórmulas previsíveis. Este aspeto traduz-se em toda a profundidade que o álbum acarreta consigo, bem como a qualidade e carácter multifacetado do trio lisboeta. Não só temos os típicos riffs pesados e progressivos, acompanhados das linhas de piano e teclado de Pedro Antunes, que suportam a performance vocal de Sienna, como também temos variações de ritmo abruptas e que fogem ao domínio do óbvio, onde os guturais se destacam nitidamente. Na verdade, não há como ficar indiferente à panóplia de elementos que a música “The Monstress” tem a si inerente. Na minha ótica, é o ponto alto do álbum, sem sombra de dúvida. Desde a componente mais industrial e eletrónica inicial, aos riffs e batida irregular, até à profundidade de Sienna onde os seus clean vocals alternam com uns cativantes guturais.
Efetivamente, considero que “The Monstress” é o ponto de partida da melhor sequência de três músicas ao longo do álbum e aquela que eu considero ser a secção mais criativa. A passagem e mudança de atmosfera entre esta e a música que a segue, “Salt”, prepara o ouvinte para o riff de guitarra inicial e continuação de elementos eletrónicos, ao mesmo tempo que se instala um momento de suspense que rebenta nos minutos finais desta obra prima. Com um registo bastante regular ao longo de toda a música, o minuto final de “Salt” com o breakdown e os guturais de Sienna, mudam completamente o trajeto até aqui delineado, abrindo as hostilidades para a última faixa que queria destacar desta sequência de três músicas musculadas, denominada “Dark Blue”.
Sublinho também a música “Leviathan”, constituída talvez pelo riff de guitarra mais Heavy ao longo de todo o álbum, um refrão que fica na memória e um breakdown final, bastante característico das variadas influências que constituem o metal progressivo. Em oposição, a música que a segue- “Faith”- ilustra de forma fiel a montanha russa de emoções que caracteriza AVIR, sendo uma faixa lenta, calma, contudo intensa onde Sienna nos oferece um dos seus momentos vocais de maior alcance, relevo e qualidade.
Assim, passo para os meus apontamentos finais onde gostaria de detalhar todos os ingredientes que formulam este álbum de estreia dos INSVLA. A voz de Sienna Sally assume um papel central, mas integrado. Em vez de se impor de forma constante, adapta-se às necessidades de cada tema, reforçando a atmosfera geral. Essa relação torna-se mais evidente, com a interpretação a acompanhar de perto as variações dinâmicas da composição. A par disto, estas variações são também palpáveis nos diversos guturais que a vocalista apresenta em vários trechos de diferentes músicas, comprovando mais uma vez o seu talento multifacetado e criatividade.
Instrumentalmente, o trabalho de Pedro Antunes nas teclas revela-se estrutural, sustentando grande parte da identidade sonora do disco. A guitarra de Mário Lopes surge de forma mais contida e estratégica, muitas vezes focada em textura e progressão, embora em algumas músicas, como referi anteriormente, assuma maior protagonismo, criando momentos de groove pesados.
No seu conjunto, é notório que AVIR funciona melhor quando ouvido como um todo. Existe uma coerência estética e emocional clara, que atravessa todas as músicas e reforça a ideia de uma experiência contínua. Ao mesmo tempo, a diversidade de influências — do metal ao eletrónico, passando por passagens mais melódicas como “Bring the Flowers” ou a já referida “Faith” — impede que o disco se torne repetitivo e linear.
Como estreia, este é um trabalho que privilegia identidade sobre imediatismo ou aquilo que entra mais facilmente no ouvido. Os INSVLA não procuram soluções fáceis, optando antes por desenvolver uma linguagem própria, assente em ambiente, detalhe e progressão. Inferindo, AVIR é apenas um ponto de partida sólido e bem conseguido. A partir daqui o mais interessante será perceber até onde a banda o consegue levar.


