Mayhem é uma banda consagrada a nível mundial, responsável por levar o Black Metal aos grandes palcos e por se tornar o centro de um subgênero inteiro. A sua trajetória divide-se entre um pioneirismo musical incontestável e uma sucessão de eventos violentos que marcaram profundamente a história do metal extremo.
No dia 6 de fevereiro de 2026, a banda lança o seu sétimo álbum de estúdio, Liturgy of Death, através da Century Media Records. Já com uma turnê em andamento, acompanhados pelos avassaladores Marduk e pelos mestres do Death Metal Immolation, os Mayhem regressam a Portugal para um concerto em Lisboa, no dia 14 de fevereiro de 2026, num dos espetáculos mais aguardados pelo público do metal extremo em território nacional.
Formados em 1984, em Oslo, Noruega, por Øystein Aarseth (Euronymous), Necrobutcher e Manheim, três jovens inspirados em bandas como Hellhammer e Venom, os Mayhem nasceram da vontade de criar algo mais sombrio, rápido e maléfico do que tudo o que existia até então. Euronymous tinha como objetivo revolucionar a sonoridade do metal extremo, empurrando os seus limites para territórios nunca antes explorados.
Em 1988, a entrada do vocalista sueco Per Yngve Ohlin, conhecido como Dead, mudou radicalmente o rumo da banda. Dead não era apenas um cantor, mas uma presença fúnebre em palco, profundamente obcecada pela morte. Chegava a enterrar as suas roupas semanas antes dos concertos para que estas adquirissem um “cheiro de terra e cadáver”, intensificando a experiência ritualística das atuações. Em palco, tornou-se conhecido pela automutilação, cortando-se com garrafas de vidro e facas.
Apesar da sua curta passagem pela banda, Dead tornou-se uma das figuras mais importantes da história do Black Metal. Foi determinante na consolidação da estética do corpse paint como algo verdadeiramente fúnebre e ritualístico, e não meramente teatral. Não chegou a gravar um álbum de estúdio completo com os Mayhem, participando apenas no álbum ao vivo Live in Leipzig e em dois temas de estúdio, “Carnage” e “Freezing Moon”, este último eternizado no clássico De Mysteriis Dom Sathanas.
Em 1991, Dead tirou a própria vida, num dos episódios mais sombrios e discutidos da história da música extrema. Euronymous foi quem encontrou o corpo e, em vez de chamar ajuda imediatamente, decidiu fotografar a cena. Uma dessas imagens viria a tornar-se, anos depois, a capa do bootleg Dawn of the Black Hearts, cristalizando para sempre a aura macabra e controversa da banda.
Se o suicídio de Dead chocou o mundo do metal extremo, os acontecimentos seguintes elevaram a história dos Mayhem a um nível ainda mais bizarro. Em 1993, Varg Vikernes, líder do projeto Burzum e, na altura, baixista dos Mayhem, acompanhado por Snorre Ruch, deslocou-se de Bergen até ao apartamento de Euronymous, em Oslo. Alegando a necessidade de discutir um contrato, a conversa rapidamente escalou para uma briga física, culminando no assassinato de Euronymous. O relatório da autópsia revelou 23 facadas: duas na cabeça, cinco no pescoço e dezasseis nas costas.
Em 1994, é lançado De Mysteriis Dom Sathanas, com as guitarras gravadas por Euronymous e o baixo registado por Varg Vikernes, tornando-se um dos álbuns mais influentes e icónicos da história do Black Metal.
A história do chamado “The True Mayhem” está marcada por conflitos internos, mudanças constantes de formação, incêndios de igrejas e uma espiral de violência que moldou de forma definitiva o Black Metal norueguês. O impacto cultural foi tão grande que originou filmes e documentários, como Lords of Chaos (2018), uma dramatização baseada no livro homónimo que retrata a fundação da banda, a relação entre Euronymous e Dead e o conflito mortal com Varg Vikernes. Apesar de elogiado, o filme recebeu críticas de membros sobreviventes da banda, como Necrobutcher, que considerou a obra exagerada e distante da realidade.
Entre os documentários mais relevantes destacam-se Until the Light Takes Us (2008), um dos retratos mais importantes do Black Metal norueguês, focado em figuras centrais como Fenriz e Varg Vikernes, e Pure Fucking Mayhem (2008), dirigido por Stefan Rydehed, que se debruça especificamente sobre a história da banda entre 1984 e 1993, com entrevistas exclusivas e imagens de arquivo raras.
Apesar de todas as mortes, prisões e polémicas que teriam destruído qualquer outra banda, os Mayhem sobreviveram. Reinventaram-se técnica e artisticamente e conseguiram manter-se, até hoje, como uma das maiores autoridades do metal extremo.
O sétimo álbum de estúdio, Liturgy of Death, apresenta-se como uma meditação filosófica e brutal sobre a mortalidade. A banda consegue unir a crueldade do Black Metal clássico com uma produção moderna, incorporando passagens quase operísticas e uma atmosfera profundamente ritualística. A capa do álbum reforça essa sensação mórbida e de misticidade extrema.
A formação atual, responsável por este novo capítulo da banda, é composta por Attila Csihar nos vocais, presente desde 1993 e voz do clássico De Mysteriis Dom Sathanas; Necrobutcher no baixo, único membro fundador ainda em atividade; Hellhammer na bateria desde 1988, um dos músicos mais influentes do gênero; Teloch na guitarra desde 2011, peça-chave da fase moderna da banda; e Ghul, que completa a formação na guitarra desde 2012, acrescentando ainda mais densidade sonora.
Com oito temas e cerca de 48 minutos de duração, Liturgy of Death conduz o ouvinte por uma jornada de caos, escuridão e niilismo existencial. Ao longo do álbum, Mayhem explora conceitos como a efemeridade da vida, o fim da existência, o horror cósmico e a morte como libertação, culminando num encerramento épico e emocional que demonstra uma maturidade rara dentro do Black Metal.
Após mais de 40 anos de carreira, Liturgy of Death prova que os Mayhem continuam relevantes, extremos e artisticamente provocadores. Um álbum que honra o legado da banda sem se prender ao passado, mostrando que o Black Metal pode ser brutal, filosófico e, paradoxalmente, belo na sua mais profunda escuridão.
O público português aguarda agora, com grande expectativa, o regresso da banda aos palcos nacionais no dia 14 de fevereiro de 2026, numa noite que promete ser totalmente negra e avassaladora. A tour Death Over Europe, organizada pela Free Music Events, celebra mais de quatro décadas de carreira e apresenta este novo e sombrio capítulo da história dos Mayhem, acompanhados pelos titânicos Marduk e pelos americanos Immolation, numa combinação que deixa qualquer fã de metal extremo em absoluto êxtase.


