Ao sexto álbum de estúdio, as Nervosa já não precisam de provar que pertencem à linha da frente do thrash metal contemporâneo. Slave Machine surge como a confirmação de uma banda que, depois de várias mudanças de formação ao longo dos anos, parece ter encontrado a sua maior estabilidade artística e uma identidade ainda mais definida. Este novo álbum, estreado globalmente no passado dia 3 de abril, não tenta reinventar o género ou apresentar algum ponto de inflexão revolucionário, nem precisa disso: o seu mérito está precisamente na forma como aprofunda a agressividade, a velocidade e a urgência do thrash clássico, dando-lhe ao mesmo tempo uma força moderna, compacta e tecnicamente ainda mais segura do que aquilo que a banda já nos tinham demonstrado no seu ótimo álbum Jailbreak (2023).
Como bem sabemos, formadas em São Paulo em 2010, as Nervosa sempre se destacaram pela combinação entre thrash clássico e uma agressividade característica do Death Metal, algo espelhado agora nos vocais de Prika Amaral, que posso já adiantar,está no ponto alto da sua performance como lead singer da banda. A sua voz, neste álbum em particular, soa ainda mais agressiva, áspera e, acima de tudo, natural, sem parecer forçada dentro do registo do thrash/death, algo que é acompanhado pela evolução musical dos restantes elementos.
É verdade que ao longo da sua discografia, a banda tem mostrado um enorme progresso na sua abordagem técnica e composicional e Slave Machine representa precisamente esse ponto alto de maturidade e robustez: um disco onde a identidade já não precisa de afirmação- apenas execução. E o tema que lhe dá corpo está bem patente na sua poderosa capa, traduzindo a mensagem de um sistema opressor, que nos faz perder a nossa própria identidade e conduz-nos a um caminho de alienação que nos faz agir como meras “máquinas” ao serviço dos interesses gananciosos do mesmo.
Claramente que as guitarras de Prika e Helena Kotina são o ingrediente principal. Os riffs são rápidos, diretos, bem articulados, alternando entre ataques secos típicos do thrash metal e momentos mais orientados para breakdowns onde sobressai uma faceta mais groove. Os solos surgem, neste contexto, com bastante naturalidade, nunca parecendo interromper o fluxo natural das músicas e isso é talvez um dos aspetos que mais tenho necessidade de frisar, pois não houve tendência para um excesso de virtuosismo, mas sim para uma sonoridade mais musculada onde há espaço para cada elemento sobressair em fases bastante específicas de cada música. Na bateria, impossível não comentar o regresso triunfal de Michaela Naydenova, estando na sua melhor versão e contribuindo inequivocamente para a consistência rítmica que marca este novo projeto da banda. Outro detalhe diferenciador e curioso é a presença de duas baixistas (Hel Pyre e Emmelie Herwegh), algo que não costuma ser comum. Mesmo quando não está em primeiro plano, o baixo é bem audível e contribui para a densidadee carácter sombrio que caracteriza a maior parte das composições.
Bem, talvez seja esta constante reinvenção e sensação de desafio no interior das Nervosa que explica o porquê de Slave Machine ser, na minha visão, um disco de clara consolidação da banda a nível internacional e que a fará avançar para um patamar ainda maior do que aquele em que já se encontra. Nota-se que foi algo pensado, trabalhado e levado ao limite da perfeição no que diz respeito à sua execução, o que explica estes três anos de espera por parte dos fãs (onde me incluo), no entanto, está comprovado que valeu claramente a pena.
Avançando mais a fundo para algumas das faixas que tornam este novo trabalho um dos pontos mais altos da carreira das Nervosa, podemos afirmar que os singles são um bom cartão de visita e servem de introdução para aquilo que é o álbum em geral, mas não contam a história toda. “Slave Machine”, a faixa-título, aposta numa repetição rítmica e num groove, traduzindo o peso da música dentro de uma vertente mais melódica onde o refrão funciona como um dos momentos mais memoráveis do álbum, daí a escolha da banda para ser o primeiro trabalho a ser lançado ao público, logo no início de fevereiro. De seguida, “Ghost Notes”, mostra uma vertente técnica distinta, destacando-se pelas variações de ritmo e pelos breakdowns de bateria onde o duplo pedal de Michael ganha protagonismo juntamente com a peculiar linha de baixo que abre o solo no último minuto, sendo um dos momentos de maior harmonia de todo o álbum. A primeira música do disco e que se constitui como o último single, “Impending Doom”, não só abre as hostilidades, como define o ambiente do disco, com a sua abertura atmosférica cria o palco certo para as Nervosa fazerem aquilo que melhor sabem. Esta música tem tudo: riff melódico, refrão catchy, pratos de bateria invulgares e técnicos, um andamento destruidor e ainda uma ponte interessante para a já referida Ghost Notes.
Se é isto tudo que encontramos nas primeiras três músicas, qualquer leitor deverá pensar que são os melhores momentos do álbum, segundo o meu ponto de vista, mas a verdade é que não. Os singles são bem estruturados, diretos e fazem o seu propósito, contudo, é precisamente no decorrer do álbum que as Nervosa vão mais além do óbvio e se diferenciam de coisas que já fizeram, tanto a nível rítmico, como técnico e é isto que distingue uma banda conformada de uma banda que pretende continuar a crescer.
Não há melhor exemplo disto do que “Beast of Burden”, inquestionavelmente a minha preferida. Constitui-se como um dos momentos mais explosivos e agressivos do álbum, não só do ponto de vista instrumental, onde a bateria (desde o seu início) avança num ritmo avassalador, como também do ponto de vista vocal, onde os versos de Prikarevelam fúria, revolta e injustiça: “Misery, Ilussion…. Some are born to laugh/Some are born to cry”. E é imediatamente após esta quadra que chega o momento de maior brio em toda a música, onde a lead guitar ecoa um riff brilhante de fundo, enquanto a sua homóloga com um riff melódico prepara o ouvinte para uma linha de pratos de bateria antagónica seguida do melhor solo do álbum. Tudo o que esta música tem de bom (essencialmente após o minuto 1:45) é uma prova clara da qualidade das Nervosa.
No mesmo patamar surge “Crawling for Your Pride”, sendo uma das composições em que mais se sente a veia crítica das Nervosa. Sem abdicar da dureza, a música ganha dimensão precisamente por não depender apenas da velocidade, focando-se num riff menos assente no choque frontal e mais na solidez e na progressão rítmica.
Para fechar esta linha de destaques gostaria de frisar a música “30 seconds”. Se a maioria do álbum se afirma, tal como referi, pela intensidade e agressividade constante, esta música destaca-se por oferecer um momento totalmente diferente, onde se cria um ambiente atmosférico, existindo uma aposta não num impacto direto e imediato, mas sim numa construção progressiva onde os vocais assumem protagonismo na forma como a tensão se desenvolve.
No final, Slave Machine não se esgota no seu impacto imediato. O que o torna realmente forte é a forma como permanece após a sua audição, demonstrando-se um trabalho compacto e seguro, onde o controlo e intensão por parte das Nervosa está bem patente, sem nunca se perder. A identidade está clara e a banda sabe perfeitamente em que direção quer ir. Cada banda tem as suas fases e as Nervosa já passaram por muitas, mas foi precisamente esse trajeto que enriqueceu a sua sonoridade ao ponto de nos brindarem com um álbum tão bem conseguido como este. Como tal, cabe-nos continuar a desfrutar da carreira e dedicação ao metal destas jovens talentosas do Brasil.


