Terramorta, uma das novas grandes promessas de Symphonic Black/Death Metal, em Portugal, lançaram no dia 26 de dezembro de 2025, para encerrar o ano de excelente forma, o seu 2º álbum “The Fading Lumina’s Embrace”. Foi lançado pela Magnus Pike Records (editora do guitarrista Carlos Ribeiro), um álbum que promete arrastar o seu auditor para uma viagem cheia de melodia e escuridão.
Formados no ano de 2022, em Amarante (Porto), por Carlos Ribeiro (guitarrista) com a ajuda de Hélder Guedes, baterista da banda até ao ano de 2025, mas que já não gravou o álbum “The Fading Lumina’s Embrace” com a banda. O novo álbum conta com alguns ajustes na formação, sendo a banda, na atualidade, composta por Carlos Ribeiro e Cristiano Fonseca na guitarra, Adriana Silvares no baixo e Dan Vesca, assumindo os vocais de Terramorta, substituindo Renato Sousa que saiu da banda no decorrer do ano de 2025. No mesmo ano também ocorreu a saída do seu baterista, Hélder Guedes, a bateria do novo álbum foi gravada pelo australiano Robin Stone.
Um álbum que promete conquistar seguidores em qualquer parte do mundo, o mesmo também foi mencionado por Nuno Rogeiro na SIC Notícias como uma das sugestões da semana, algo que faz qualquer fã de metal encher-se de orgulho.

Terramorta conta com algumas participações em festivais portugueses como, por exemplo, na Ressurreição do Metal (São Pedro do Sul, Viseu) organizada pelo Milagre Metaleiro e também no Xapada Fest (Lisboa). Conta, ainda, com uma “internacionalização”, neste caso, com a sua participação como banda de abertura para a banda de symphonic black metal, Mortuorial Eclipse (Argentina), cujo concerto se realizou em Vigo (Espanha), no ano de 2025.
Vamos então mergulhar nas suas atmosferas intensas com toques sombrios e melódicos.
Baba Yaga– No primeiro tema do novo álbum, o início de uma nova era da escuridão, ergue-se uma guitarra sozinha e gélida com a presença de um ambiente atmosférico. Baba Yaga é uma figura cativante, obscura e aterrorizante do folclore Eslavo oriental (Rússia, Ucrânia e Bielorrússia), vive numa casa com pés de galinha e representa a ambiguidade da natureza, pode ajudar ou destruir.
Abordam temas como a natureza implacável, através de passagens de guitarra gélidas que alternam com explosões de raiva. Explora ainda a ideia do isolamento e de como a sociedade teme aquilo que não consegue controlar ou compreender, personificado na figura da bruxa da floresta, ouvem-se harmonizações que evocam o mistério das florestas do Leste Europeu, intervalos dissonantes criam uma tensão constante, como se algo estivesse a observar entre as árvores.
Caronte– Na mitologia, Caronte é o barqueiro do submundo, a sua função é transportar as almas dos recém-mortos, através dos rios Aqueronte e Estige, que dividiam o mundo dos vivos do mundo dos mortos. A figura de Caronte é utilizada para explorar a transição final da vida, a sua composição aborda a inevitabilidade do fim.
A agressividade surge num tema mais focado no Death Metal Melódico, com uma bateria que contém mais explosões de agressividade. São, mais uma vez, utilizadas “camadas” de riffs melódicos, envolvidos com orquestrações profundas misturadas com a agressividade.
Inicialmente, faz-se notar um vocal com mais gutural, porém, nos refrões apresenta uma voz profunda e limpa, é notável a presença do baixo de Adriana Silvares, que dá a sustentação “terrosa”.
Existem momentos em que se realça uma “quebra sonora”, onde o som fica lento e “arrastado”, criando uma sensação de peso e cansaço, são utilizados alguns “coros épicos” que concedem uma atmosfera do submundo.
O uso de teclados gera uma aura de “frio”, remetendo à névoa do rio Estige onde o Caronte passava para transportar as almas. Baba Yaga e Caronte são dois exemplos de que os Terramorta a mitologia e o folclore.
Fog of War– O termo “Fog of War” refere-se, originalmente, à incerteza vivida por soldados no campo de batalha, à falta de visão, ao medo do desconhecido e à adrenalina que cega. Surgem as guitarras cerradas de Carlos Ribeiro e Cristiano Fonseca, acompanhados de blast beats de Robin Stone, constantes, simulam o som da artilharia ou do batimento acelerado de um soldado em pânico. Conta a participação especial da cantora Daniela Costa (Trabalhadores do Comércio).
Este seu tema alterna entre passagens de pura velocidade e momentos de orquestrações tensas, marcados pela presença de uma voz feminina que chama a atenção do ouvinte, os riffs são mais rápidos e menos melódicos, apresentam uma distorção mais “suja” que gera uma parede de som. Mesmo sendo uma música mais “agressiva”, o elemento sinfónico não desaparece, simplesmente dá uma sonoridade épica ao conflito, à guerra existencial.
Deliberate Killing of Oneself – O Fim da Esperança é o momento em que o sujeito decide que o peso da existência superou a vontade de continuar, o “ato deliberado” é a última forma de controle que o ser humano tem sobre um destino cruel e inevitável. Em vez de esperar por “Caronte”, o indivíduo “chama” o barqueiro, antes do tempo.
Inicia-se com um piano melancólico, de entrada, a fazer choque com a explosão das guitarras, surgem riffs pesados e sujos a acompanhar os vocais melancólicos. O uso do piano ou de violoncelos, isolados na mixagem, acentua a sensação de solidão.
É comum haver momentos em que a música “morre”, surge um som ambiente, representando o nada que se segue, surgem vocais com guturais típicos do “Death Metal” acompanhados de riffs mais “Black Metal”. O baixo, uma vez mais, faz-se notar e ajuda a construir uma parede sonora, apesar da agressividade presente, os diversos elementos harmonizam-se e entrelaçam-se de uma forma que mantém o auditor com a clara presença de todos os instrumentos.
Agent of Change – É explorada a ideia da mudança, que raramente é pacífica, um tema sobre o “poder” da vontade humana. A letra aborda a ideia de que a mudança é a única força capaz de quebrar os ciclos de sofrimento, uma presença mais de “Death Metal Sinfónico”, as guitarras apresentam “palhetadas”, mais rápidas, e padrões rítmicos que mudam constantemente, simbolizando a própria natureza instável do tema abordado.
Os arranjos sinfónicos são épicos e elevam a música, dando-lhe um ar de “conquista”, conduzindo o ouvinte numa marcha para uma nova era. O vocal encarrega uma certa autoridade que reforça que a mudança não espera por ninguém, e quem a procura, tem de ir em direção a ela.
Um tema que é um exemplo da maturidade que a banda Terramorta coloca nos seus temas. Contudo, conseguem refletir numa temática que poderia ser apenas “agressiva”, atribuindo-lhe um extra e uma certa camada de sofisticação. A sua temática e a sua energia quebram um pouco a melancolia e injetam uma energia de ação no meio do seu niilismo.
Um tema que conta com a participação especial do guitarrista Enrico (Hideous Divinity) banda que vai participar nos dois concertos de lançamento do álbum “The Fading Lumina’s Embrace”, no próximo dia 27/02, no RCA Club, em Lisboa, e, no dia 28/08 no Route 206 Bar, em Vila Nova de Famalicão.
March of the Forsaken – O tema inicia-se com guitarras bem “serradas” que criam, naturalmente, um peso bruto, com a presença do baixo a suportar este peso todo. A bateria apresenta blast-beats a um ritmo constante, hipnótico e esmagador, o uso de coros profundos em tons graves dá a sensação de uma legião de vozes, algo grandioso e cerimonial. Um dos temas mais “agressivos” do álbum, os vocais têm algumas transformações de guturais (típicos do Death Metal) para alguns screams mais rasgados (típico do Black Metal), o tema é considerado de curta duração, mas que funciona como uma descarga.
A Marcha dos Esquecidos, as almas que não pertencem nem ao céu, nem ao inferno, os que foram esquecidos pela “Luz”. A “marcha” é uma metáfora para o passar do tempo e o caminho em direção ao destino inevitável, retrata a aceitação do destino, marcham, pois é a única coisa que lhes resta fazer. A sua sonoridade faz o ouvinte viajar até uma legião interminável de figuras encapuçadas, sob um céu cinzento ou em chamas, caminhando em uníssono, em direção à proclamação do seu fim. Terramorta consegue criar imagens nas mentes dos seus ouvintes, penetrados pela sua sonoridade intensa, consegue conduzir o ouvinte até aos seus cenários escuros, mortíferos de forma única.

Passamos ao sétimo tema do álbum, até agora uma viagem incrível, desde florestas onde a luz não atravessa, passando por rios mitológicos, mudanças e marchas de legiões esquecidas, surge agora o tema:
Sovereign of the Void – Tocam as trombetas da “Terramorta”, um tema apenas instrumental, não há presença de guitarras, vocais, baixo nem bateria, apenas sinfonia com um coro que nos faz viajar como se estivéssemos a entrar num reino gelado e sombrio, conjuntamente com uma legião, lado a lado. O tema é uma passagem para o outro lado do álbum.
Sic Semper Tyrannis – Uma das frases mais famosas e carregadas de sangue da história da humanidade. A expressão latina significa “Assim sempre aos tiranos” e é, essencialmente, um grito de regicídio e de revolta violenta. Historicamente, esta frase é atribuída a Brutus no assassinato de Júlio César e também usada por John Wilkes Booth, ao assassinar Abraham Lincoln.
O tema foca no momento em que os oprimidos decidem que a única forma de mudar o mundo é cortando a cabeça de quem o governa. Insinua a tirania e a lâmina é o único remédio que a história conhece, nasce uma aura de vingança implacável. Se o tema “Sovereign of the Void” era a passagem para o outro lado do álbum, este é a passagem para a revolta e a sede de vingança dos oprimidos A sua sonoridade é densa e das mais impactantes do álbum, a bateria apresenta ritmos de “cavalgada” que simulam o caos de uma revolução, os arranjos sinfónicos não são melancólicos, eles são brutos, contam com metais pesados (trompas e trombones) que dominam para criar uma sensação de drama épico, como se estivesse um império a arder.
O tema conta a participação especial da cantora Daniela Costa, desta vez, nos coros. Uma participação muito especial, a “joia da coroa”, o uso de sintetizadores super special guest de Derek Sherinian (ex Dream Theater).
O vocal soa como um grito de guerra, muitas vezes sobreposto por coros, acompanhado pelas guitarras muito inspiradas na atmosfera do Black Metal, usando, intensamente, o trémulo picking, criando parede de som contínua que gera uma sensação de caos.
Light Imprisioned – A atmosfera intensifica-se, tornando-se mais densa. Tocam os sinos e surgem espaços onde só o vento percorre. As guitarras e o baixo geram uma sensação de “muralhas sonoras”, a bateria parece que vai sufocar, criando uma sensação de aprisionamento. De repente, surgem momentos melódicos, e volta, novamente, a ser “esmagada”.
Realçam-se notas de guitarra agudas que “brilham” através da distorção, como se fossem pequenos raios de luz a tentar escapar. As orquestrações que ouvimos são mais cordas agudas e sintetizadores que criam uma atmosfera intensa, os vocais demonstram o lamento de saber que a prisão é demasiado forte e o grito de revolta do desejo de libertar a luz. Surgem vocais melódicos femininos e screams agudos se fossem gritos de pedido de ajuda.
O tema aborda o motivo de estarmos no escuro e da luz ter sido apagada, não morreu, simplesmente foi acorrentada e escondida. Eleva um sentimento de melancolia ao compreender que a luz existe, porém, não é possível alcançá-la.
No final do tema, o som desvanece, gradualmente, até restar apenas o silêncio, simbolizando que a luz foi apagada ou que a prisão se fechou, definitivamente.
Terramorta remete o seu ouvinte a uma viagem negra e melancólica, que se intensifica desde a revolta até à aceitação, acompanhados de uma textura sonora e a imagens sonoras que só a sua atmosfera pode criar, seguimos para o último tema do álbum:
The Fading Lumina’s Embrace – O tema-título é a peça central que dá nome ao álbum, é esta a música que resume toda a jornada espiritual e sonora dos Terramorta.
Se outras faixas são capítulos, esta é a conclusão da história, chegou o momento da transição, é a aceitação de que a luz está a morrer e que a escuridão está a reclamar aquilo que é seu…
Existe uma profunda melancolia e uma beleza trágica na ideia de que a luz brilha com mais intensidade, precisamente, no momento antes de se apagar para sempre.
Surge uma guitarra isolada e melancólica, iniciando com orquestrações melancólicas que vão a crescer, surgem o uso de harmónicos, evocando a angústia, o vocal explode num gutural que parece carregar o peso do mundo inteiro, simbolizando o esforço final da vida antes de se apagar.
Chegamos ao fim do álbum “The Fading Lumina’s Embrace” que promete conquistar fãs pelo mundo inteiro.
Intenso, sombrio, com uma filosofia forte que faz o seu ouvinte passar por cenários sonoros incríveis, desde florestas onde a luz não passa, rios mitológicos, legiões esquecidas até celas claustrofóbicas.
Ao ponto de não retorno, enterrado na escuridão, Terramorta demonstra que é uma força que cresce no Metal Português e que promete que tem muito mais para dar…


