Um ano em que os Scorpions não pisam solo português pode-se dizer que é algo estranho e atípico. Amantes de música como nós, estamos habituados, de forma constante, a ver anúncios de um novo concerto de Scorpions no nosso país, seja ele na capital ou em terras mais a norte. Existe um carinho especial do público português e que é recíproco por parte da banda que sempre definiu Portugal como um dos grandes públicos da sua carreira. Aliás, foi em Lisboa que os Scorpions gravaram o seu álbum acústico em 2001, no Convento do Beato e, desde aí, entre muitas tours de despedida e inúmeros concertos, Portugal esteve sempre presente. E foi o que acabou por acontecer no passado dia 8 de julho, no Meo Arena, que recebeu a lendária tour de celebração dos 60 anos da banda.
Sem opening act, pelas 21 horas, como previsto, as luzes apagaram-se e a introdução deu lugar a “Coming Home”, tema que abriu um espetáculo onde a experiência falou mais alto. Seguiram-se “Gas in the Tank”, do mais recente álbum Rock Believer, e “Make It Real”, mostrando desde cedo o equilíbrio entre material recente e os temas que marcaram a história da banda. Efetivamente, desde aqui, o resto do concerto foi um autêntico tributo aos 60 anos de carreira, onde os fãs, de todas as gerações que ali se encontravam, tiveram o privilégio de viajar no tempo entre os mais variados clássicos.
Nota, desde início, para Klaus Meine, que se mostrou em muito melhor forma que no concerto não tão bem conseguido realizado no Rock in Rio Lisboa, em 2024. Apesar dos inevitáveis sinais da idade, denotáveis sobretudo a nível da mobilidade, manteve uma prestação segura e comunicativa, sempre bem acompanhado pela guitarra de Rudolf Schenker, cuja energia continua a ser uma das imagens de marca dos Scorpions, tendo na retaguarda, obviamente, aquele que eu considero ser, nos dias de hoje, a trave-mestra da banda, o ex Motorhead Mikkey Dee, com uma energia inapagável e que mantém o nível e o peso do concerto do início ao fim. O seu solo deixa espantado qualquer apreciador de boa música, a nível rítmico e de virtuosidade, onde, simultaneamente, no ecrã gigante aparece sempre uma slot machine que homenageia os míticos Motorhread e consecutivamente os Scorpions. Ainda dentro da primeira metade, fomos brindados com temas como “The Zoo”, o instrumental “Coast to Coast” e um medley dedicado aos primeiros anos da banda, que recuperou excertos de “Top of the Bill”, “Steamrock Fever”, “Speedy’s Coming” e “Catch Your Train”. Foi um momento especialmente apreciado pelos fãs de longa data, que responderam com entusiasmo às referências ao período mais clássico da carreira do grupo.
Contudo, apesar dos clássicos mais pesados e da nostalgia por temas mais robustos, onde eu me incluo como grande apreciador, o grande motivo pelo qual a banda saiu do nicho do rock/metal e atravessou géneros musicais, gerações e explodiu globalmente, é exatamente o mesmo motivo pelo qual passados 60 anos, o Meo Arena se encontrava esgotado: o inevitável tridente composto por “Send Me an Angel”, “Wind of Change” e a aclamada e intemporal “Still Loving”, onde a arena se iluminou com milhares de luzes de telemóveis, criando um dos momentos mais marcantes do concerto, acompanhado em uníssono por praticamente toda a sala. Na parte derradeira do concerto, não poderiam faltar três das minhas preferidas, sendo estas “Blackout”, “Big City Nights” e “No One Like You” um encore perfeito que antecipou, claramente, a música pela qual ninguém abandonaria a sala até que fosse tocada, o hino “Rock You Like a Hurricane”, encerrando mais um concerto que confirma porque é que estes rapazes que já não vão para novos continuam a atravessar gerações.
Mais do que uma celebração nostálgica, este concerto demonstrou que os Scorpions continuam a apresentar um espetáculo sólido e profissional, bem produzido, com o objetivo de colmatar várias lacunas apresentadas por Klaus. No entanto, a energia de Shenker, como já referi, e os dedilhados da lenda Matthias Jabs, continuam a justificar assistir a banda ao vivo, não só para quem já viu, mas também para quem está a ter agora a oportunidade de ver pela primeira vez. Portugal voltou, assim, a receber uma das bandas mais importantes da história do hard rock, numa noite em que a música falou por si e onde ficou evidente que os Scorpions continuam a justificar o estatuto que conquistaram ao longo da sua carreira.
Scorpions
Set 1
- Intro
- Coming Home
- Gas in the Tank
- Make It Real
- The Zoo
- Coast to Coast
- Top of the Bill / Steamrock Fever / Speedy's Coming / Catch Your Train
- Bad Boys Running Wild
- Delicate Dance
- Send Me an Angel
- Wind of Change
- Loving You Sunday Morning
- I'm Leaving You
- New Vision
- Tease Me Please Me
- Big City Nights
- Still Loving You
Encore
- Blackout
- Rock You Like a Hurricane


