A segunda edição da “Bilha d’Aço” não foi só um festival, foi o ponto de encontro em Caneças para celebrar o melhor do que se faz em Portugal. Houve uma certa celebração e afirmação de ser fã de música pesada feita por cá.
Caneças, outrora conhecida pela distribuição de bilhas de barro com água fresca, quase como um gesto comunitário, vê agora essa memória reinterpretada. “Bilha d’Aço” pega nesse passado e torce-o para ficar mais pesado. E no meio disto tudo, decorria uma pequena feira popular em paralelo. Como se o sagrado e o mundano coexistissem sem conflito. Entre concertos, havia sempre tempo para ir ao Manel ou até à banca da V-gun. Deu sempre tempo para beber uma cerveja, comer um prego, um hambúrguer vegan, ou até uma fartura lá na feira. Corpo e espírito alimentados, como deve ser, prontos para a festa.
DIA 1
O primeiro dia foi dedicado à introspeção, à palavra e à densidade emocional. Uma noite que se construiu mais como uma viagem do que como um simples alinhamento de bandas.
Os Avesso abriram o portal. Projeto recente do Porto, liderado por Paulo Rui (que pode dizer que mede “um metro e picos”, mas cuja presença em palco ocupa muito mais do que isso) e companhia, mostrando aqui o seu lado mais tenro e filosófico, em contraste com Redemptus e Besta. Ainda a dar corpo a Desassossego (2024), pegaram na poesia de Fernando Pessoa e Omar Khayyam e transformaram-na em matéria viva. Algo que não se limita a ser ouvido, mas a ser sentido. Há ali silêncio, peso, respiração. Como se cada palavra fosse uma invocação.
Seguiram-se os Sinistro, já bem rodados depois de uma tour em São Paulo, completamente sintonizados. Durante uma hora, entregaram um post-metal carregado de dor, beleza e fatalismo, onde o fado não aparece como referência direta, mas sente-se na base de tudo. Com a voz hipnótica de Priscila da Costa, acompanhada por Rick Chain na guitarra, Paulo Lafaia na bateria e Ricardo Matias na guitarra, continuam a afirmar-se como arquitetos de atmosferas pesadas e belas. Com Vórtice ainda fresco, ouviram-se “O Equivocado” e “Templo das Lágrimas”, a par de “Partida”, “Relíquia” e “Abismo”. Mais um concerto sólido. Nunca desiludem ao vivo.
E depois… Mão Morta.
Vindos de Braga, trouxeram um alinhamento que percorreu décadas como se o tempo não existisse. Começaram com “Facas em Sangue”, seguiram com “Velocidade Escaldante” e passaram ainda por clássicos como “Amsterdão”, “Em Directo (Para a Televisão)” e “Novelos da Paixão”. Um percurso que atravessou a génese da banda até No Fim Era o Frio, sempre ligado por uma tensão constante. No centro de tudo, Adolfo Luxúria Canibal. Não apenas como vocalista, mas como condutor. Como médium. Não interpreta. Incorpora. E isso sente-se em cada gesto. Entre momentos de caos e silêncio, foi puxando o público para dentro daquele universo onde o desconforto é necessário e a beleza vem com ferrugem.
O concerto parecia fechar com “Anarquia Duval”, que puxou um mosh intenso, mas ainda houve espaço para mais. “Aum” abriu o encore e, perante a insistência do público, ainda houve tempo para mais uma. Fecharam com “1º de Novembro”. Um final forte, mais sentido do que explicado.
A primeira noite foi de entrega coletiva. E quem saiu dali sabia que era preciso descansar, porque o segundo dia não ia facilitar.



