A noite em que o metal extremo avassalou Lisboa, 14 de fevereiro de 2026. Assinalava-se mundialmente o Dia de São Valentim, conhecido pela celebração do amor.
Neste caso, não havia nenhum anjo do amor; se houvesse, seria certamente algo negro e cheio de violência. Um dia sem nuvens e com sol, após uma semana atribulada por intensos temporais. Porém, uma nuvem negra chegou à capital, fortalecendo cada um dos presentes e, nesse dia, o mais celebrado foi a raiva, a guerra, o caos e a morte em uma das “missas negras” mais intensas de que há memória em Portugal.
A Free Music trouxe até terras lusitanas uma tour que será relembrada como uma das mais temidas do metal extremo: “Death Over Europe”, com um line-up que faz qualquer amante do género vibrar do início ao fim. Mayhem (Black Metal), Marduk (Black Metal) e Immolation (Death Metal) foram os responsáveis por uma noite em que a celebração foi da morte e da história do metal extremo em Portugal.
A tour “Death Over Europe” esgotou o LAV e, desde cedo, começou a notar-se o movimento negro nos seus arredores. Os seus fiéis chegavam para um ritual cheio de guerra e blasfémia, como uma praga.
IMMOLATION
Para abrir as hostes de uma noite que prometia ser totalmente devastadora, os americanos Immolation. Formados no ano de 1988 em Yonkers, New York, por Ross Dolan (baixo/vocais) e Robert Vigna (guitarra), são um dos pilares fundamentais do Death Metal, com a sua sonoridade única. Apresentam estruturas musicais complexas, tempos ímpares e, acima de tudo, riffs dissonantes, que se tornaram a marca registada da banda, growls profundos e reconhecíveis, mantendo uma dicção única. Contam, na sua bagagem, com 11 álbuns de estúdio, com o 12º a sair no dia 10 de abril de 2026, e carregam ainda atuações blasfémias e violentas nos quatro cantos do mundo.
O público ansioso, a sala cheia. Os Immolation entram em palco e a violência do Death Metal começa…
Apresentam o tema “An Act of God”, do álbum “Acts of God” (2022), um dos temas emblemáticos da sua discografia dos últimos anos. A sua temática foca-se na corrupção das instituições religiosas e na forma como o dogma é usado para controlar e dividir as massas. A ideia que deixam na letra deste tema é que um “ato de Deus” não é um milagre, mas atrocidades cometidas em nome da fé. Explora-se a ideia de que a humanidade se ajoelha perante ídolos que não respondem, enquanto o mundo real se desmorona em violência e ganância.
A música explode com um blast beat avassalador de Steve Shalaty, um dos bateristas mais técnicos do género. O seu ritmo é frenético e não dá espaço para respirar. Entusiasmados, os presentes vão ao rubro com este tema; o movimento surge a violência entre o público, começa o moshpit, onde a agressividade no olhar de cada um não faltava, a “diversão da violência” era imensa. Entretanto, surge o tema “Swarm of Terror”, diretamente do álbum “Harnessing Ruin” (2005), um tema totalmente bem executado, onde a violência continua como se fosse um tornado totalmente técnico, com um groove esmagador e arrastado. Ganha destaque, dando a sensação de esmagamento; a sua temática explora a ideia de que vivemos num estado de alerta constante, bombardeados por ameaças que nos impedem de pensar com clareza.
Surgiram também os temas “Majesty and Decay”, faixa-título do 8º álbum, lançado em 2010, considerado um dos marcos definitivos da sonoridade mais moderna da banda, com uma execução, mais uma vez, perfeita e muito atrativa. A banda convive bem com os seus fãs e sabe como “puxar” pela violência humana. Este tema apresenta uma introdução atmosférica, que começa com um riff lento e melancólico e vai crescendo em camadas. Cria uma sensação de entrar numa catedral em ruínas que acaba de cair. Entretanto, entra a esmagadora bateria e transforma-se num turbilhão, suportando riffs que alternam entre o peso esmagador e harmonias dissonantes.
É notável a autoridade na voz de Ross Dolan, como se ele fosse um monarca a observar o fim do seu próprio reino; a forma como declama o título da música, no refrão, é icónica.
Foram apresentados mais intensos temas como “Adversary”, o seu mais recente tema, que fará parte do seu novo álbum “Descent”, que será lançado no dia 10 de abril, onde o público prestou total atenção, pois é a primeira tour onde este tema é tocado.
Mas agora surgem temas que vão destruir a mente de qualquer amante de Death Metal. O seu quinto tema, que marca o meio da sua apresentação, “Dawn of Possession”, tema-álbum do seu primeiro álbum de estúdio, considerado um dos álbuns mais importantes para a história do Death Metal por muitos dos seus seguidores, este é o clássico dos clássicos, o álbum dos álbuns… A sua legião vai totalmente à loucura; ninguém está parado ou em silêncio. O público grita e puxa pelos deuses do Death Metal. A execução deste tema é avassaladora; a energia em palco e o peso são contagiantes até ao fundo da sala, uma sonoridade cavernosa e densa, uma “maldade” que poucas músicas conseguem replicar. O riff inicial é um dos mais icónicos da história do metal. Começa com uma nota sustentada que desce para um padrão rítmico que parece estar a “perfurar” o chão. A letra aborda o momento em que um indivíduo rejeita a luz divina para abraçar as trevas.
O LAV transforma-se numa “máquina do tempo”. É fascinante ver a precisão atual da banda ao tocar um tema que foi escrito quando o Death Metal ainda estava na sua infância. A música não envelheceu um dia; continua a soar mais perigosa do que 90% de temas que são lançados nos dias de hoje.
Passamos para o tema “Blooded”, do álbum “Acts of God” (2022), onde a sua performance continua extrema e dissonante.
O 7º tema da noite, “Higher Coward”, não é apenas uma música, é a “porta do inferno”, o primeiro tema de um, considerado por muitos, um dos melhores álbuns de Death Metal de todos os tempos, “Close to a World Below” (2000), com uma atuação onde, mais uma vez, não há margem de erro; tudo parece tão simples e prático no seu Death Metal bastante complexo, e a sua sonoridade continua à moda de Immolation: cavernosa, bruta, violenta e intensa, onde o caos é rei.
Já muito próximo do fim, apresentam o seu 8º tema, “Rise the Heretics”, diretamente do álbum “Atonement” (2017), e o seu penúltimo tema da noite, “Nailed to Gold”, do álbum “Here In After”, um dos álbuns mais consagrados pelo seu público. Ambos os temas foram apresentados de forma violenta; o público não esperava outra coisa. A violência continua. O público vê a atuação demolidora de Immolation chegar ao fim, mas não enfraquece, pois sabe que o resto da noite vai continuar intenso e com cheiro a sangue.
O término da sua apresentação foi o tema “The Age of No Light”, que também pertence ao álbum de 2022, anteriormente mencionado. Um final marcado por um fogo lento que arde e culmina num caos absoluto, um tema marcado não pela sua rapidez, mas sim pelos momentos em que parece que os seus instrumentos carregam um peso arrastado.
A banda, neste tema, usou luzes mínimas e apenas tons gélidos, forçando o público a concentrar-se apenas na massa sonora produzida em palco.
Immolation era um regresso bastante aguardado pelos fãs de metal extremo, pois já não atuavam em território nacional desde o ano de 2018. Mais que um concerto, é uma experiência única, onde todos os fãs lideram de uma forma incrível com o peso dos titãs do Death Metal.
Apresentaram uma setlist sólida, com temas clássicos e antigos, dos seus mais consagrados álbuns, contemplando ainda a apresentação de temas recentes que o público também adora. Demonstraram-se sempre bastante entusiasmados e agradecidos pelo apoio e pelo entusiasmo do público, com uma prestação gloriosa que merece ser recordada e falada.
A prestação soberba de Immolation chega ao fim, mas ainda há muito para vir nesta noite negra. Se Immolation é um dos titãs do Death Metal, agora surgem outros titãs, neste caso, do Black Metal, conhecidos pelos seus álbuns consistentes, onde a guerra e a blasfémia reinam como temática principal.
MARDUK
Marduk, formada em 1990, em Norrköping, na Suécia, por Morgan Håkansson, conta com um reconhecimento gigante por ser uma das bandas mais blasfemas e agressivas do mundo do metal extremo. Contam com 36 anos de carreira e levam na sua bagagem 15 álbuns de estúdio, alguns deles considerados dos melhores álbuns da história do Black Metal, com diversos EPs, algumas splits e álbuns ao vivo que fazem qualquer fã de metal extremo ficar totalmente encantado com a sua sonoridade impactante pela agressão extrema, com uma gigante legião de fãs que carrega o seu nome em qualquer evento de metal extremo.
Marduk conta, na sua carreira, com duas grandes eras: Era Legion (1995–2003), uma fase de velocidade pura e agressividade satânica clássica na qual lançaram álbuns que definiram o género e que marcaram o seu nome na história do Black Metal, e a Era Mortuus (2004–Presente), com a entrada de Mortuus (também conhecido por Arioch, dos Funeral Mist), a banda ganhou uma nova camada de terror; a sua voz é “doentia”, variando entre gritos lacinantes e sussurros tenebrosos, e a sua sonoridade tornou-se mais densa e ritualista.
Marduk entra em palco e o público vibra de uma forma caótica e natural. O seu regresso não foi demorado, pois marcaram presença em terras lusitanas, no ano de 2024, no festival MMOA, em Viseu. Aqui era esperado um ritual diferente: estávamos numa sala fechada, onde o clima fica mais gélido e mortífero; rapidamente, o fumo sai de palco, o nevoeiro atinge Lisboa e a blasfémia começa a surgir. Surge o seu primeiro tema:
Frontschwein – A guerra começou e logo o caos no público. O tema, que tem o nome do álbum lançado no ano de 2015, Frontschwein, era uma expressão usada pelos soldados alemães na Segunda Guerra Mundial (“porco da frente”), demonstrando a desumanização dos soldados durante a guerra, historicamente ligada à Wehrmacht alemã, para mostrar como esses combatentes eram tratados como peças descartáveis no campo de batalha.
A sua sonoridade e a sua temática remetem-nos diretamente para o meio das trincheiras, onde não há ideologia, apenas existe o instinto de matar ou morrer. É uma marcha de guerra implacável; Mortuus utiliza um registo vocal que soa como se estivesse a cuspir terra e pólvora. A forma como ele grita o título “Frontschwein!” no refrão faz parte de um momento muito poderoso ao vivo. A violência espalha-se, ninguém está quieto, a agitação da guerra vem do palco e é recebida com louvor pelo público.
Seguimos para o segundo tema da noite negra de Marduk, um dos temas mais conhecidos e de grande importância na história do Black Metal.
Wolves – um dos principais, um clássico de Marduk, um tema que gera agressividade e uma energia constantes no público, e a sua resposta foi exatamente a esperada. Viajamos até ao ano de 1993 e ao seu consagrado álbum Those of the Unlight, o segundo álbum de estúdio da banda, considerado um dos pilares do Black Metal sueco. A temática de “Wolves” utiliza a metáfora do lobo para explorar temas de natureza selvagem, paganismo e anti-cristianismo, visto como o predador supremo, o “inimigo do cordeiro”, uma metáfora óbvia para o inimigo de Cristo. É um tema que representa a força, a noite e a liberdade indomável e individual, o não pertencer ao “rebanho”. O tema evoca paisagens geladas e florestas negras. É um hino de força e de retorno aos instintos mais primitivos.
A sua sonoridade destaca-se por um ritmo que vicia o ouvinte, tem uma sonoridade atmosférica e melódica, garantindo uma total agressão, típica do Black Metal sueco dos anos 90. Tem um ritmo de “cavalgada” que dá uma sensação de movimento, como se estivéssemos a perseguir uma presa numa floresta cheia de neve.
A banda mantém uma postura em palco fiel ao Black Metal, gélida, mas com uma energia surreal. Tem-se notado, ao longo dos anos, que a sua convivência com os fãs é cada vez mais próxima; nota-se que a banda gosta de tocar, de avassalar qualquer sala e de enriquecer a sua legião com a sua forte cultura de Black Metal.
Throne of Rats – o grande tema do álbum Plague Angel (2004), o primeiro álbum de Mortuus na banda, demonstra a diferença que o vocalista trouxe a Marduk. Um tema focado na Peste Negra, na morte medieval e na podridão religiosa. Descreve um mundo governado pela doença e pela decadência. O “Trono de Ratos” representa o triunfo da peste sobre a humanidade e as suas instituições religiosas. A música faz-nos viajar até cidades medievais moribundas, onde ratos são os mensageiros da morte e não fazem distinção entre reis e mendigos. A sua sonoridade destaca-se pelos blast beats implacáveis do baterista Simon; é densa e opressiva, com riffs que parecem rastejar, rápidos, mas com variações que dão uma sensação de instabilidade, como se a música estivesse prestes a colapsar. O moshpit torna-se “caótico” e o crowdsurf acentua-se neste tema. A música termina de forma abrupta e violenta, deixando o público sem respiração.
O quarto tema, Shovel Beats Sceptre, é, sem dúvida, a música mais atmosférica e lenta da discografia dos Marduk, diretamente do último álbum Memento Mori (2023). Este tema serve como reflexão da mortalidade e da hora da morte (memento mori), uma música que se entranha de forma pensativa na mente de cada ouvinte. A mensagem é simples e brutal: não importa quão poderoso sejas em vida, a pá que cava a tua cova será sempre a vencedora final. Este tema serviu para quebrar a velocidade frenética do concerto e instaurar um clima mortal e de pura opressão.
O tema é arrastado, pesado e gélido, o foco está no espaço entre as notas, criando uma tensão que parece nunca aliviar. Os riffs fazem o ouvinte parar o movimento e pensar. É talvez uma das melhores interpretações vocais de Mortuus, que utiliza uma voz arrastada, quase um lamento de cadáver, encaixando perfeitamente na cadência da bateria. Um momento teatral, onde o público, que estava em modo de “mosh”, para para observar. É um tema que exige atenção e que “suga” o oxigénio da sala.
“Se Panzer Division é o som da guerra, Shovel Beats Sceptre é o som da cova silenciosa que espera por todos os soldados e reis no final da batalha.”
O quinto tema, Cloven Hoof, do álbum World Funeral (2003), é um dos álbuns mais importantes da discografia da banda. Com uma interpretação perfeita de Mortuus, é famoso por ser incrivelmente rápido, com riffs que soam como uma metralhadora, muito técnicos. Soa como uma melodia negra que fica gravada na cabeça. Os blast-beats são constantes e criam um suporte rítmico que parece não ter fim; a violência regressa ao público. A sua temática descreve a chegada de uma entidade maligna à Terra, não apenas sobre o oculto, mas também sobre a destruição da pureza. O “Cloven Hoof” que pisa o solo sagrado é uma imagem de profanação, celebrando o caos e o triunfo das forças das trevas sobre a ordem estabelecida.
O próximo tema, Sulphur Souls, do álbum Opus Nocturne (1994), é considerado, por muitos fãs, a quinta essência do Black Metal sueco, um equilíbrio perfeito entre melodia gélida e agressividade primitiva, com um dos riffs mais memoráveis de Morgan. Apresenta uma qualidade épica, com harmonias de guitarra que criam uma atmosfera de devastação e triunfo ao mesmo tempo, entre blast beats ferozes e passagens de bateria mais abertas, permitindo que a melodia da guitarra respire. Apresenta um som gélido com técnica de tremolo picking, marca registada do género. Ao vivo, ganha um peso extra: a produção atual da banda e a voz cavernosa de Mortuus transformam este clássico numa parede sonora muito mais densa e aterradora que a gravação original. É aquele momento em que os fãs da “velha guarda” se sentem em casa, um tema nostálgico, mas que não perdeu o seu perigo. Mesmo antes das temáticas de guerra, os Marduk já eram mestres em criar hinos de devoção às trevas.
On Darkened Wings, o sétimo tema da noite, é uma das músicas mais importantes do álbum Those of the Unlight (1993). A bateria não se limita ao caos, apresentando uma sonoridade diferenciada; parece quase um tema de “heavy metal tradicional”, mas envolvido num manto de distorção negra. O riff principal é um dos mais reconhecíveis do género, apresentando uma melodia ascendente e descendente feita com a técnica de tremolo picking, criando sensação de voo ou de vento gélido.
Mortuus traz uma interpretação muito diferente do original, arrastando as sílabas e dando um tom mais sofrido e ancestral à música, como se aquelas “asas” estivessem velhas e cobertas de cinzas, mas poderosas. A sua temática descreve um voo triunfante sobre o mundo, a imagem da liberdade absoluta através da escuridão. Um dos temas onde foi mais notável o baixo de Simon Wizén. Foi o momento mais épico e melódico de um setlist desenhado para destruir. O público adora e vibra com a sua atuação, algo totalmente estrondoso.
Infernal Eternal é o som de um bombardeamento aéreo sem sobreviventes. O tema é o título de um dos álbuns ao vivo mais icónicos da história do Metal Extremo, lançado em 2000, mas a música faz parte do devastador Nightwing (1998). A letra transborda um sentimento de triunfo e poder, onde não há espaço para fraqueza; é um ataque incessante. Os blast beats de Simon, ao vivo, são tão rápidos que criam uma textura rítmica quase contínua, como o motor de um avião de combate. A guitarra de Morgan não procura a melodia de On Darkened Wings, mas sim uma agressividade ríspida e abrasiva. Ao vivo, Mortuus deu-lhe uma roupagem mais “suja”, tornando o refrão ainda mais ameaçador e menos “limpo”.
The Black…, diretamente do seu primeiro álbum, Dark Endless (1992), explora a ideia do preto não como cor, mas como o estado final da existência. É o retorno ao caos primordial, ao vazio onde não existe luz nem esperança. Este tema criou um clímax atmosférico; o público parou, por segundos, a violência apenas para absorver a “aura” que Marduk criou. O tema começa com intensidade controlada e vai-se expandindo, como se a escuridão estivesse a engolir a sala. A bateria mantém um ritmo constante que serve de base para a guitarra de Morgan criar notas dissonantes. Morgan utiliza riffs que se repetem de forma circular com uma melodia gélida. Mortuus transforma esta música num pesadelo, usando o seu registo mais cavernoso, fazendo com que a palavra “Black” soe como se estivesse a ser arrancada das profundezas da garganta.
O penúltimo tema da noite surge após meros segundos de aplausos e gritos do público para a banda. Mortuus questiona se o público está preparado para o próximo tema; o público grita, mas Mortuus pede mais… O público dá o seu grito de guerra, está tudo pronto para o tema mais clássico da história dos Marduk e um dos mais clássicos da história do Black Metal. Mortuus grita “Panzer” e o público grita “Division”; o vocalista quer mais e puxa, uma vez mais, pelo público com o mesmo esquema, grita novamente “Panzer” com uma voz única e icónica, e o público sente que vai começar a guerra e grita em resposta. Mortuus grita e deixa a sala em silêncio: “Panzer Division Marduk!”.
Começa o tema Panzer Division, o mais destrutivo da noite, uma descarga de adrenalina e de guerra com cerca de três minutos de duração. Tema título do álbum de 1999, que revolucionou o Black Metal com sua agressividade insana e um ininterrupto blast-beat do primeiro ao último segundo. A sua temática refere-se às divisões blindadas alemãs da Segunda Guerra Mundial, conhecidas pela tática de Blitzkrieg. É focado na misantropia e no anticristianismo, considerado um “padrão de ouro” da brutalidade.
A música aplica essa tática na sonoridade com um ataque rápido, coordenado e devastador, sem dar tempo ao inimigo ou ouvinte para reagir. A guitarra de Morgan cria riffs ríspidos e agressivos, reforçando a ideia de uma máquina em movimento. Transformou o recinto num caos absoluto; a intensidade é tão alta que a própria energia da sala sobe. Imediatamente, Mortuus canta com agressividade visceral! Ver o baterista Simon Schilling manter aquele ritmo ao vivo é uma prova de resistência física impressionante, especialmente no fim de um setlist carregado de temas rápidos. Panzer Division não foi um tema para se ouvir; foi uma força da natureza que atravessou o público como um projétil de alta velocidade.
Uma nota final: apesar de o tema abordar a Segunda Guerra Mundial e o Exército Alemão, os Marduk não defendem os atos realizados durante a guerra; apenas os narram de forma a causar um impacto estrondoso no ouvinte.
Depois de um ataque agressivo, surge o tema final da noite negra e agressiva de Marduk. A noite termina com um tema mais melódico, mas também relacionado com a Segunda Guerra Mundial.
Blond Beast, diretamente do álbum Frontschwein (2015), refere-se a Reinhard Heydrich, uma das figuras mais temidas do regime alemão durante a Segunda Guerra Mundial, conhecido pela sua frieza implacável e por ter sido o arquiteto da “Solução Final”. Por trás da fachada de um “homem renascentista” (violinista talentoso e esgrimista de nível olímpico), estava um dos indivíduos mais frios e calculistas do regime, e é isto que Marduk explora: o lado negro da psique humana e o misantropismo.
A sonoridade da guitarra cria uma elegância fria da morte e da destruição, mas hipnótica; a letra foca-se na marcha imparável do destino e na figura do carrasco que executa o seu trabalho com precisão gélida e desprovida de emoção. Um tema que marca a diferença da sonoridade da banda: em vez dos habituais blast beats a 200 bpm, a música assenta num ritmo de bateria constante, de médio tempo, que convida a abanar a cabeça com uma batida “quatro por quatro” muito marcada, acompanhado pelo baixista Simon Wizén, que sustenta toda a música. Mortuus afasta-se dos gritos agudos e usa um tom mais arrastado, quase como se estivesse a narrar uma procissão fúnebre. A forma como ele pronuncia o título no refrão é um dos momentos mais memoráveis da fase moderna da banda.
Assim terminou a sua prestação gloriosa, que será relembrada no mundo do Black Metal e do metal extremo. Morgan fica em palco a agradecer, e a sua legião aplaude e grita sem parar.
“Dos campos de batalha de Frontschwein ao vazio absoluto de The Black…, passando pela máquina de guerra de Panzer Division, à melodia e ao lado mais negro da psique humana de Blond Beast, os Marduk provaram que são mais do que apenas velocidade; são os arquitetos de uma escuridão que é, ao mesmo tempo, física e espiritual.”
Mais do que um concerto de velocidade pura, os Marduk ofereceram em Lisboa uma antologia da decadência humana, com uma frieza melódica em alguns temas e uma presença cavernosa de Mortuus. A máquina de guerra sueca provou que, após três décadas, continua a ser das forças mais disciplinadas e implacáveis do Black Metal europeu. Transformaram o LAV num campo de batalha onde o aço e a blasfémia ditaram as regras.
MAYHEM
Chega a vez dos noruegueses Mayhem, a mundialmente consagrada banda de Black Metal, a banda que levou o Black Metal aos grandes palcos mundiais e que se tornou o centro de uma série de crimes. Tem uma trajetória dividida entre pioneirismo musical e uma sucessão de eventos violentos que marcaram um subgênero inteiro.
Formados em 1984, eles foram os arquitetos da “Segunda Vaga do Black Metal”. Mais do que música, os Mayhem trouxeram ao palco do LAV um ritual de transgressão que carrega consigo décadas de herança marcada por tragédias e igrejas em chamas. O álbum mais influente do gênero, De Mysteriis Dom Sathanas, acompanha apresentações nos quatro cantos do mundo e uma discografia com sete álbuns de estúdio, diversos EPs e álbuns ao vivo.
Começa a apresentação teatral e negra; as luzes apagam-se para receber os Mayhem e o seu primeiro tema:
“Realm of Endless Misery”, uma escolha de abertura densa, diretamente do álbum mais recente Liturgy of Death, lançado em 06/02/2026. O tema introduz o público ao som mais recente da banda, um início totalmente explosivo, dominado por blast beats, com um tom de guitarra que não agride o ouvinte, focando-se em sons mais agudos que chamam a atenção. A bateria abandona a lógica rítmica convencional: tanto existem momentos de silêncio como, de súbito, explosões rítmicas.
Voam vozes fantasmagóricas, onde Attila eleva seus vocais a um nível que soa como teatro de horror, misticismo e técnica pura; por vezes, atua como mestre de cerimônias ritualistas. Dá ao álbum o tom “religioso” (no sentido negro da palavra) que o título insinua. É possível escutar sussurros em um ouvido, gritos lancinantes no outro e um rosnado central. Cria um efeito de “vozes na cabeça” que simula o colapso mental do desespero, uma representação teatral incrível. O público reage com entusiasmo ao primeiro tema de Mayhem, numa noite que promete ser negra, teatral e cheia de caracterização.
Attila é conhecido por ser o rei da caracterização e, neste tema, sua representação era a de um sacerdote macabro, representando de forma perfeita a personagem que o tema aborda. Segue-se o tema “Buried by Time and Dust”, o primeiro apresentado do colosso norueguês De Mysteriis Dom Sathanas.
Este tema separa os curiosos dos verdadeiros devotos. Sonoramente, a faixa é um exemplo perfeito do que é o verdadeiro “muro de som” norueguês. Depois de um tema mais atmosférico, é o momento em que os Mayhem mostram que, apesar de todo o teatro e rituais, continuam a ser uma das bandas mais velozes e técnicas do planeta.
Hellhammer demonstra seu estatuto de lenda ao vivo, com seus blast beats executados com precisão cirúrgica e dinâmica que evita que o som pareça mecânico. O uso constante dos pratos cria uma atmosfera de “chuva de estilhaços” que preenche todo o espectro sonoro.
A guitarra de Teloch e Ghul é o exemplo perfeito do estilo norueguês ríspido, dissonante e gélido, como se fosse de outra dimensão. O membro fundador Necrobutcher sustenta todo o peso com sua técnica e baixo. A letra foca-se na melancolia e na futilidade da existência eterna, referindo uma entidade que desperta após séculos de sono. O público reage e adora o tema, tocando uma nostalgia nos ouvintes mais veteranos.
“Bad Blood” é o terceiro tema da noite do “verdadeiro caos”, diretamente do penúltimo álbum Daemon (2019). Uma peça essencial, pois representa a “nova era” dos Mayhem. Enquanto o tema anterior vive da nostalgia, este demonstra que a banda continua a ser uma força criativa, vibrante e perigosa no século XXI.
A letra de “Bad Blood” explora temas viscerais e psicológicos, abordando o “sangue mau” que corre nas veias, uma metáfora para a herança de pecado, ódio ou doença mental transmitida de geração em geração. Trata-se da impossibilidade de escapar ao que somos e ao que foram nossos antepassados. Ao contrário da velocidade cega de “Buried by Time and Dust”, “Bad Blood” destaca-se por uma sonoridade mais encorpada, moderna e, acima de tudo, com presença de groove. As guitarras de Teloch e Ghul não são apenas “gelo”; têm peso.
O riff principal é arrastado e venenoso, movendo-se como uma serpente. Há uma clareza ao vivo que permite ouvir cada nota dissonante, criando uma harmonia doentia que caracteriza a fase mais atual da banda. O baixo de Necrobutcher ganha destaque especial, servindo de alicerce para a bateria de Hellhammer que, embora mantenha os blast beats característicos, foca-se muito mais em dinâmicas. Durante esta música, Attila Csihar utiliza adereços que remetem ao ritualismo e à carne neste caso, ossos. Sua voz alterna entre rosnados profundos e sussurros esquizofrénicos. É uma música que faz o público abanar a cabeça ritmicamente e entrar em colapso no mosh.
Passamos para o quarto tema, “Life Is a Corpse You Drag”, lançado como single em janeiro de 2026 esta faixa afasta-se da grandiosidade operática e foca-se numa sonoridade mais ríspida, cruzando o Black Metal clássico com influências de Crust. A letra trata a vida não como um dom, mas como um fardo físico. O corpo é visto como algo em constante estado de morte, e o ato de viver é apenas o esforço de carregar esse “cadáver” até o fim.
Os riffs de Teloch e Ghul são dissonantes e cortantes, oferecendo uma sensação de “atrito” no som, como se as notas estivessem a ser arrastadas por uma superfície rugosa, alternando entre momentos de velocidade frenética e abrandamentos pesados que simulam o esforço de carregar um fardo. Aqui, Hellhammer deixa de lado o tecnicismo limpo para entregar uma performance mais primitiva e violenta. Os pratos soam cáusticos e os bombos parecem pancadas secas, contribuindo para a atmosfera de degradação da música. Attila usa um registro particularmente doentio: seus gritos soam estrangulados e desesperados, como se estivesse fisicamente exausto, complementando perfeitamente o conceito da letra.
O público, devido à velocidade do tema, acelera o mosh, que se torna esmagador. A linguagem corporal de Attila muda drasticamente: move-se com dificuldade, curvado, simulando o peso invisível da letra. Foi um momento de “teatro físico”, onde a música se tornou palpável.
O tema seguinte surge diretamente do EP Wolf’s Lair Abyss (1997), um tema que, embora não tenha grande destaque na discografia de Mayhem, apresenta qualidade suprema. Refere-se ao regresso a um estado primitivo e predatório, o despertar de um instinto antigo adormecido pela civilização. A “pele antiga” é a herança do lobo que os Mayhem evocam. Os riffs tocados são como lâminas de gelo: extremamente rápidos, técnicos e secos. Ao vivo, a precisão das notas é o que mais impressiona, onde não há espaço para o “caos sujo”, mas apenas para uma agressividade fria e calculada.
Hellhammer elevou a bateria a um nível quase inumano. Os blast beats são tão rápidos que criam efeito de metralhadora. No concerto, este é o momento em que se vê os pés dele a mover-se como pistões hidráulicos. Este tema mostra que o Black Metal pode ter vozes variadas, de gritos histéricos a rosnados profundos, abandonando frequentemente os movimentos lentos e ritualistas para uma postura mais agressiva e frontal.
A Dissonância Militarizada de “Psywar”, tema de Esoteric Warfare (2014), é uma demonstração de força técnica, colocando de lado o Black Metal das noites negras e florestas gélidas. Este tema soa a laboratórios secretos, bunkers e guerra psicológica. A letra de “Psywar” abandona o ocultismo tradicional, mergulhando em conspiração, manipulação de massas e tecnologia. Aborda como a mente humana pode ser invadida, reformatada e destruída, sem disparar um único tiro. É sobre o medo de que nossos pensamentos não sejam nossos, mas produto de uma “frequência” externa.
Attila utiliza um registro mais seco e autoritário; não soa como um fantasma, mas como um mestre de marionetes que manipula a mente do ouvinte por frequências proibidas. A bateria de Hellhammer atinge cadência quase industrial; os blast beats são executados com clareza absoluta, soando como engrenagens de uma máquina de destruição que nunca falha um dente. As guitarras criam riffs angulares, cheios de pinch harmonics e intervalos dissonantes, gerando sensação constante de ansiedade.
No sétimo tema da noite, a banda abandona a agressividade física para adotar uma postura quase robótica. As luzes tornam-se estroboscópicas e brancas, simulando um campo de batalha futurista “To Daimonion”, do álbum Grand Declaration of War (2000), é inspirado pela filosofia de Friedrich Nietzsche e refere-se ao espírito ou voz interior, guiando o indivíduo para além do bem e do mal. É sobre a soberania do indivíduo perante o caos do universo. Attila, que minutos antes parecia um morto-vivo, move-se agora com precisão de ditador, farda e boina, segurando um laço de enforcamento.
A guitarra, executada com precisão militar por Teloch e Ghul, flui cortante. Hellhammer utiliza polirritmos e dinâmicas que se misturam com agressividade mecânica. Ao vivo, é fascinante ver a calma com que executa passagens de complexidade absurda. Attila adapta-se ao estilo mais seco da canção, alternando entre comando de general e sussurros de lunático. O público não se empurrou; ficou a absorver a complexidade sonora, como tentando decifrar um código.
“View From Nihil”, também de Grand Declaration of War (2000), é um dos desafios técnicos mais exigentes da discografia dos Mayhem. Ao vivo, mostra que a banda não teme sons que “magoam” o ouvido: riffs construídos sobre intervalos e escalas que parecem colapsar. A bateria alterna velocidades absurdas e paradas bruscas, criando sensação de instabilidade constante. O baixo de Necrobutcher sustenta e dá peso à performance.
Attila explora seu lado mais histérico e vanguardista; seus gritos parecem transmissões de rádio distorcidas, vindas de uma dimensão sem lógica. Adota postura de “estatismo frenético”, como se recebesse descargas elétricas — a visualização perfeita de alguém tendo uma epifania terrível perante o vazio. Depois da complexidade matemática de Grand Declaration of War, o álbum “Chimera” trouxe de volta uma sonoridade mais crua, mas com produção cristalina.
“Whore” funciona como descarga de adrenalina pura, ataque frontal carregado de misantropia e desprezo, usado de forma metafórica para descrever a humanidade e instituições, especialmente a religião, representando algo falso e corrompido pelo poder. O riff é rápido, estilo Black/Thrash, direto ao ponto. As guitarras soam como serras elétricas, a bateria mantém ritmo de metralhadora, acompanhada pelo baixo de Necrobutcher que sustenta todo o peso. Attila dá um tom gutural e ameaçador, cuspindo palavras com nojo visceral.
Foi o momento de maior caos no mosh pit, com crowdsurf e violência extrema no público.
E agora, o tema mais consagrado da história do Black Metal: “The Freezing Moon”, do álbum De Mysteriis Dom Sathanas (1994). Os primeiros segundos são reproduzidos com a voz de Dead, fazendo qualquer fã sentir-se possuído. O ar parece ficar fisicamente mais frio. O riff é arrastado, melancólico e sinistro. Teloch e Ghul mantêm o timbre “de serra”, original de 1994, arrepiando a plateia. A meio, explode ataque de blast beats de Hellhammer, contrastando morte estática e fúria do além. Attila sobe novamente ao palco, dando seu carisma único ao tema.
No fundo da sala, uma lua cheia com a cúpula de uma igreja envolta em nevoeiro. Attila passa o microfone a Necrobutcher durante o refrão, permitindo que o único membro fundador ativo cante. Mais que um tema, é um culto às noites gélidas de Black Metal, vividas por adolescentes que revolucionaram o metal extremo.
“Chimera”, faixa que dá nome ao álbum de 2004, é colocada após The Freezing Moon para equilibrar a setlist, mostrando tanto a era técnica quanto o espírito clássico. A temática aborda dualidade, transformação e a natureza ilusória da realidade, referindo a criatura mitológica composta por partes de diferentes animais, metáfora para algo antinatural e monstruoso, com sensação de “ordem no caos”.
O riff é rápido e flui como água gelada; a clareza do som permite apreciar a complexidade das notas de Teloch e Ghul. Hellhammer brilha tecnicamente, com fills criativos e bombos constantes, mantendo tensão contínua. Attila adapta-se ao estilo seco da canção, usando rosnados ríspidos que acompanham a precisão das guitarras.
Aproximando-se do fim da atuação, a sonoridade lembra uma cavalaria em um abismo. O próximo tema é famoso por sua estrutura galopante e pela forma como baixo e bateria criam parede sonora intransponível.
“Cursed in Eternity”, do clássico De Mysteriis Dom Sathanas (1994), destaca-se para Necrobutcher. A linha de baixo é icónica, distorcida, metálica e pulsante. As guitarras formam camadas gélidas evocando paisagens desoladas. O ritmo constante cria sensação de inevitabilidade.
Attila, ainda com visual ritualista, move-se pouco, ergue os braços como ditando sentença sobre o público. A voz atinge tons profundos e quase litúrgicos. Um dos únicos temas escritos por Dead, a letra descreve sofrimento eterno e isolamento espiritual uma alma condenada a vagar por dimensões vazias, “amaldiçoada na eternidade”.
“De Mysteriis Dom Sathanas” continua a assombrar o LAV. O próximo tema, “From the Dark Past”, é uma das músicas mais complexas do álbum de 1994, com velocidade constante e mudanças de ritmo que desafiam a física. Hellhammer impressiona com blast beats e uso de pratos “ride”, criando textura sonora semelhante a vento uivando numa tempestade de neve.
Os riffs de Teloch e Ghul são gélidos, circulares e hipnóticos. Attila mistura grunhidos ríspidos e variações operáticas estranguladas, mantendo lendária a prestação do disco original. A letra fala de memórias de um passado remoto florestas antigas, castelos e tempos de trevas.
No LAV, o efeito é de túnel; público entra em transe violento. A iluminação acompanha o ritmo com flashes azuis e brancos intensos, criando ilusão de que a banda se desintegra e recompõe em palco.
O último tema antes do encore: “Weep for Nothing”, do álbum Liturgy of Death (2026). Um “banho de gelo”, a música mais niilista do álbum recém-lançado. Explora a indiferença do universo ao sofrimento humano e a futilidade do choro diante do nada.
O baixo de Necrobutcher apresenta tom sujo e rastejante. A bateria de Hellhammer alterna blast beats com ritmos lentos e pesados, acentuando sensação de inevitabilidade. As guitarras usam tremolo picking lento e acordes abertos, sem sentimentalismo. Attila declama os versos, em voz monótona e profunda, criando efeito arrepiante.
Apesar da melodia, o mosh continua e a violência do público também. “Weep for Nothing” transmite brutalidade honesta sobre a fragilidade da vida, gerando silêncio respeitoso na audiência, raro em concertos de metal extremo.
Chega o momento épico do fim da noite, com os últimos quatro clássicos.
O encore inicia com “Silvester Anfang”, sessão de bateria ritualista, como marcha rumo a um fim frio e mortífero. A sala explode em atmosfera fúnebre. Em seguida, “Deathcrush”, do EP de 1987, mostra brutalidade primitiva e inspiração thrash. Hellhammer toca simples e direto, Attila grita com necessidade maníaca e Necrobutcher move-se agressivo pelo palco. O maior circle pit da noite abre-se, com cenário vermelho lembrando a capa original do EP.
Do mesmo EP, “Chainsaw Gutsfuck” reforça o início do legado dos Mayhem. As guitarras adotam tom primitivo, sem solos ou melodias etéreas, mantendo ritmo constante de “moagem”. Hellhammer toca simplista, criando caráter doentio. Attila torna-se carniceiro, com movimentos pesados simulando autópsia em palco.
Seguem “Carnage” e “Pure Fucking Armageddon”, do EP Deathcrush. Velocidade thrash, riffs serrados e distorção ríspida. Necrobutcher sustenta a música enquanto Attila grita visceralmente. “Pure Fucking Armageddon” termina o concerto com explosão sonora, deixando zumbido nos ouvidos do público. A distinção entre banda e plateia desaparece; a sensação é de missão cumprida.
“Não houve melhor forma de terminar a noite no Lisboa ao Vivo do que com ‘Pure Fucking Armageddon’. Depois de 40 anos, os Mayhem continuam a ser arquitetos do fim do mundo.”
Um concerto carregado de teatralidade, performances vocais notáveis e setlist cuidadosamente escolhida. Mais uma vez, ficou provado que Mayhem, portadores de grande parte da história do Black Metal, mantêm identidade única no metal extremo.



