A República da Música, na noite do dia 22 de Outubro, ficou marcada pela diversidade sonora, pela entrega em palco e pela capacidade de duas bandas distintas criarem uma ligação genuína com o público. Os húngaros Roses of Thieves ficaram responsáveis pela abertura, apresentando uma fusão dinâmica de folk, metal, pop e eletrónica. Já os Myrath, cabeças de cartaz, trouxeram a sua inconfundível identidade de metal progressivo com influências orientais, num espetáculo que equilibrou grandes temas, novas composições e momentos de intensa emoção.
Roses of Thieves
A abertura ficou a cargo dos Roses of Thieves, que entraram em palco com uma proposta musical tão versátil quanto energética. O alinhamento começou com a introdução e Fend Off the Dark, seguindo-se Be the Captain e Hymn of Hell,o terceiro tema do alinhamento, onde a energia contagiou verdadeiramente a sala. A mistura de melodias folk com peso metálico e elementos eletrónicos revelou-se particularmente eficaz, conquistando uma audiência que respondeu com entusiasmo e começou a acompanhar a banda de forma cada vez mais participativa.
A vocalista Ivett Dudás foi uma das grandes protagonistas da atuação. Com uma presença de palco extremamente performativa, dançou, percorreu o palco e interagiu constantemente com o público, demonstrando uma capacidade natural para transformar cada canção num momento de partilha. Não se limitou a interpretar os temas e deu-lhes movimento, personalidade e uma dimensão visual que complementou a música.
O alinhamento prosseguiu com Once Upon a Time / Synonym for Blasphemy / The Viceroy, seguindo-se Keep, Boys e Now You’re On. A sucessão de temas demonstrou a versatilidade da banda e a forma como consegue cruzar diferentes influências sem perder coerência.
Já Taste of Freedom, The Last Thing, Not Your Fate e White Wolf deram continuidade a uma atuação que privilegiou a energia, a comunicação e a construção de uma identidade própria. Outro aspeto que merece destaque é a utilização da tecnologia na execução musical, permitindo aos músicos maior liberdade de movimentos e uma interação constante entre si e com a audiência.
Os Roses of Thieves cumpriram plenamente a missão de abrir o espetáculo, apresentando uma atuação dinâmica, tecnicamente consistente e marcada por uma forte componente performativa. A mistura de folk, metal, pop e eletrónica, aliada à energia da vocalista, demonstrou o potencial de uma banda que sabe transformar a sua música numa experiência participativa.
Myrath
Formados em 2001 pelo guitarrista Malek Ben Arbia, os tunisinos Myrath construíram uma identidade singular no universo do metal progressivo, combinando peso, complexidade instrumental e melodias inspiradas nas tradições musicais do Norte de África e do Médio Oriente. Atualmente radicada em França, a banda tem sabido transformar esta fusão numa assinatura própria, reconhecível tanto em estúdio como ao vivo.
Na República da Música, a atuação arrancou com The Funeral, dando início a um alinhamento que rapidamente colocou o público em sintonia com a banda. Seguiu-se Born to Survive, um dos temas mais emblemáticos do repertório, cuja força melódica e mensagem de superação encontraram uma resposta imediata na sala.
Com Dance, a energia voltou a subir, confirmando a capacidade dos Myrath para combinar ritmos marcantes, refrões memoráveis e uma abordagem instrumental tecnicamente exigente sem perder o contacto com a audiência.
Desde os primeiros temas, os aplausos e os coros demonstraram o entusiasmo do público. A banda apresentou-se perante uma sala disponível para cantar e acompanhar cada mudança de intensidade, criando uma atmosfera que se tornaria cada vez mais envolvente ao longo da noite.
Um dos momentos especiais do concerto aconteceu em Until the End, que contou com a participação de Ivett Dudás, vocalista dos Roses of Thieves.
A presença da cantora húngara acrescentou uma dimensão particular à interpretação, criando um diálogo vocal que reforçou a intensidade emocional do tema. A colaboração funcionou também como uma ponte entre as duas bandas da noite, mostrando como a música ao vivo pode proporcionar encontros que vão além da simples partilha de palco.
Depois deste momento, os Myrath prosseguiram com The Clown e Through the Seasons, mantendo o equilíbrio entre melodias envolventes, peso instrumental e diferentes atmosferas. A banda demonstrou uma capacidade consistente para construir momentos de tensão e libertação, mantendo a atenção do público sem depender exclusivamente dos segmentos mais pesados.
Com Tales of the Sands e Merciless Times, os Myrath reforçaram as diferentes dimensões da sua identidade sonora. O primeiro tema remete para o universo oriental que distingue a banda, enquanto o segundo evidencia a vertente mais incisiva do seu metal progressivo. A execução instrumental revelou-se sólida e precisa, mas foi a interpretação de Zaher Zorgati que deu ao espetáculo uma dimensão particularmente humana. O vocalista conseguiu alternar entre a imponência vocal, a proximidade com a audiência e momentos de vulnerabilidade genuína, conduzindo os coros e mantendo uma comunicação constante com a sala.
Num dos momentos mais marcantes da noite, Zaher dedicou palavras especiais a Portugal, elogiando a simpatia, a alegria e a forma calorosa como os portugueses recebem os artistas. Fez questão de transmitir que o país ocupa um lugar especial no seu coração, uma declaração recebida com entusiasmo pelo público. A emoção ganhou ainda maior expressão quando o vocalista abordou a importância de ultrapassar períodos difíceis e de encontrar na música uma fonte de força e agradecimento. A sua entrega tornou-se particularmente evidente quando se sentou junto ao palco e vibrou com a resposta da audiência.
A encerrar o alinhamento principal surgiu Soul of My Soul, um dos temas que melhor representa a dimensão mais íntima e melódica dos Myrath. A canção aposta numa construção atmosférica, em arranjos refinados e numa interpretação vocal carregada de emoção. Em vez de privilegiar apenas a agressividade instrumental, procura criar uma ligação através da melodia e da expressividade, sem abandonar as influências orientais que caracterizam a banda.
Depois de Soul of My Soul, os Myrath regressaram ao palco para um encore composto por três temas, Endure the Silence, Les Enfants du soleil e Believer, escolhido para encerrar a noite. A resposta da audiência confirmou a força de um tema que reúne vários dos elementos mais eficazes da identidade dos Myrath melodias memoráveis, intensidade instrumental e uma mensagem de perseverança.
Os Myrath, confirmaram a singularidade da sua proposta musical. A fusão entre metal progressivo e sonoridades orientais, a precisão instrumental e a interpretação emotiva de Zaher Zorgati deram forma a um espetáculo que foi muito além da demonstração de competência técnica. Para nós, no Media Junkbox, que acompanhamos com particular entusiasmo o percurso dos Myrath, esta passagem por Lisboa voltou a demonstrar por que razão a banda ocupa um lugar especial no panorama do metal progressivo contemporâneo.
Uma noite em que a música serviu de ponte entre culturas e em que a emoção foi tão importante como o peso dos riffs.

