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Pennywise incendeiam o Coliseu dos Recreios numa noite de punk rock sem concessões

No passado dia 30 de junho, o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, foi palco de uma das datas mais aguardadas do ano pelos fãs de punk rock e hardcore. Os Pennywise regressaram finalmente a Portugal, duas décadas após a sua última passagem pelo país, trazendo consigo uma enorme expectativa. Ainda antes da abertura de portas, o ambiente nas imediações do Coliseu já era marcado pela nostalgia, entre encontros e reencontros de amigos unidos pela mesma paixão. Era evidente que aquela seria uma noite especial, daquelas que ficam gravadas na memória de quem as vive.

A abrir a noite estiveram os portugueses Soul Crusher, na sua estreia em palco, seguidos pelos norte-americanos End It, completando um cartaz que despertava enorme expectativa. Desde cedo, o ambiente no Coliseu fazia prever uma noite memorável. O entusiasmo era evidente entre o público e, embora ninguém pudesse antecipar exatamente o que estava para acontecer, as expectativas eram as melhores possíveis para receber uma das bandas mais icónicas do punk rock melódico.

SOUL CRUSHER

As honras de abertura ficaram entregues aos Soul Crusher, recém-formado supergrupo nacional de hardcore que reúne alguns dos nomes mais experientes da cena portuguesa: Ricardo Dias (Congas) na voz, Mike Ghost na guitarra, João Vidigal no baixo e Tiago na bateria. A responsabilidade de dar o pontapé de saída numa noite desta dimensão era grande, mas a banda mostrou desde o primeiro minuto que estava preparada para o desafio.

Com uma discografia ainda curta, mas já suficiente para despertar a curiosidade dos fãs de hardcore, os Soul Crusher foram os primeiros a subir ao palco do Coliseu dos Recreios. Apesar de encontrarem uma sala ainda longe da sua lotação máxima, a banda aproveitou os cerca de vinte minutos de atuação para apresentar a sua identidade, assente num hardcore direto, carregado de atitude e sem massagem.

END IT

Seguiram-se os norte-americanos End It, um dos nomes mais entusiasmantes da nova geração do hardcore. Oriundos de Baltimore, o quarteto tem conquistado cada vez mais destaque graças à intensidade das suas atuações e a uma abordagem frontal, onde a crítica social, a ética e a integridade caminham lado a lado com uma descarga sonora implacável.

Impulsionados pelo lançamento do seu mais recente álbum, “Wrong Side of Heaven”, editado no ano passado, e pelo reconhecimento conquistado com os EPs “Unpleasant Living” e “One Way Track”, os End It subiram ao palco do Coliseu determinados a deixar a sua marca. Liderados pelo carismático Akil Godsey, o quarteto norte-americano protagonizou uma atuação intensa, onde a energia nunca baixou de nível e a entrega em palco foi total.

Temas como “21”, ,“Life Sublime”,“Optical Delusions” e “One Way Track” mantiveram a intensidade sempre no máximo, com a banda a debitar hardcore explosivo sem dar qualquer hipótese ao público de recuperar o fôlego. Pelo meio, houve espaço para “Could You Love Me?”, versão dos Maximum Penalty, que revelou uma faceta diferente de Akil Godsey, deixando claro toda a sua versatilidade vocal e oferecendo um dos momentos mais distintos da atuação.

Com uma fusão explosiva de hardcore, punk e muito groove, a banda rapidamente conquistou os presentes, transformando um público ainda em fase de aquecimento numa plateia cada vez mais participativa. Sem grandes pausas entre temas e com uma atitude irreverente do início ao fim, os End It mostraram porque são apontados como um dos nomes mais promissores da cena hardcore atual, deixando o Coliseu na temperatura ideal para a entrada dos aguardados Pennywise.

PENNYWISE

Pouco depois das 23 horas com o Coliseu dos Recreios completamente lotado, chegou finalmente o momento mais aguardado da noite. Ao entrarem em palco, os Pennywise foram recebidos por uma ovação ensurdecedora e bastaram os primeiros acordes de “Peaceful Day” para transformar a sala numa autêntica explosão de energia. Durante largos segundos, não houve uma única pessoa que permanecesse indiferente ao regresso da lendária banda californiana aos palcos portugueses, numa aposta certeira da Hell Xis.

Sem perder tempo, seguiram-se “My Own Country” e “Straight Ahead”, elevando ainda mais a intensidade do concerto. Já completamente à vontade, Jim Lindberg protagonizou um dos primeiros momentos de descontração da noite ao pegar na câmara de um dos fotógrafos presentes no fosso para fotografar ele próprio o público. Do outro lado, a resposta foi imediata: circle pits, crowdsurfing e centenas de vozes unidas mostravam que o Coliseu estava totalmente entregue aos Californianos. A meio da atuação, foi a vez do baixista Randy Bradbury dirigir-se ao público e recordar a longa ausência da banda em Portugal. “Há quanto tempo é que não vínhamos cá? Dez? Quinze? Vinte anos?”, perguntou, visivelmente incrédulo, antes de rematar, entre risos: “Porque raio não viemos cá durante vinte anos?!” A reação da plateia foi imediata, com uma enorme ovação que deixou bem claro o quanto este regresso era esperado.

A partir daí, os Pennywise limitaram-se a fazer aquilo que melhor sabem: disparar clássico atrás de clássico. Temas como “Same Old Story”, “The World” e “Waiting” despertaram um sentimento de pura nostalgia, transportando muitos dos presentes de volta aos tempos da adolescência. Entre refrões cantados em uníssono, moshes incessantes e sorrisos de quem esperou duas décadas por este momento, a ligação entre banda e público tornou-se ainda mais evidente. Num dos momentos mais divertidos da noite, a banda decidiu apresentar-se “para quem ainda não nos conhece”. Randy Bradbury começou por dizer: “Somos os Pennywise, de Hermosa Beach, Califórnia.” A resposta foi uma forte salva de palmas. Não satisfeito, insistiu: “Somos os Pennywise, de Hermosa Beach, Califórnia… Estados Unidos da América.” Desta vez, o Coliseu respondeu exatamente como ele esperava, com uma estrondosa mistura de vaias e assobios.

Foi o pretexto perfeito para o baixista disparar um sonoro “Fuck You, Trump!”, provocando uma explosão de aplausos antes de a banda arrancar imediatamente com “Fuck Authority”. Mais de duas décadas após o seu lançamento, o tema continua a soar tão pertinente quanto no dia em que foi editado, transformando-se num dos momentos mais intensos e participados de toda a noite, com o público a cantar cada palavra em uníssono.

Houve ainda espaço para um dos momentos mais especiais do concerto, numa clara demonstração do espírito de união que sempre caracterizou o punk rock. Antes de mergulharem num bloco dedicado às suas influências, os Pennywise fizeram questão de prestar homenagem a algumas das bandas que ajudaram a moldar o género, como Black Flag, Dead Kennedys, NOFX e Bad Religion. O tributo ganhou forma através de um medley que juntou “Bob”, “Kill All the White Man” e “The Brews”, dos NOFX, seguido de “Do What You Want”, dos Bad Religion. Sem deixar a energia cair por um segundo, a banda ligou de imediato esse momento a “Pennywise”, um dos temas mais emblemáticos do seu repertório, numa sequência que fez a plateia cantar cada verso e celebrar o legado de algumas das maiores referências da história do punk rock.

Com a reta final do concerto a aproximar-se e o público completamente rendido, Jim Lindberg decidiu lançar a pergunta inevitável: “Que música querem ouvir?”. A resposta surgiu de imediato, em uníssono, com centenas de vozes a gritarem “Bro Hymn”. Era o desfecho que todos esperavam. Assim que Randy Bradbury fez soar a inconfundível linha de baixo que abre o tema, o Coliseu explodiu. Multiplicaram-se os abraços, os braços erguidos, os circle pits e um coro ensurdecedor que transformou a sala numa celebração da amizade, da união e do espírito que sempre definiu os Pennywise. Foi um daqueles momentos que transcendem um simples concerto e ficam gravados na memória de quem os viveu.

À beira de completar quatro décadas de carreira, os Pennywise continuam a provar que a idade é apenas um número. A intensidade, a entrega e a ligação com o público permanecem intactas, mantendo viva uma chama que continua a unir gerações de fãs do punk rock. O regresso a Portugal não podia ter corrido melhor e deixou apenas um desejo no ar, que a próxima visita aconteça muito antes de passarem mais vinte anos.

Setlist ao Vivo

Pennywise

Local: Coliseu dos Recreios
Localização: Lisbon, Lisbon, Portugal
Data: junho 30, 2026

Set 1

  1. Peaceful Day
  2. My Own Country
  3. Straight Ahead
  4. Violence Never Ending
  5. Same Old Story
  6. The World
  7. Waiting
  8. Fuck Authority
  9. Bob / Kill All the White Man / The Brews (versão de NOFX)
  10. Do What You Want (versão de Bad Religion)
  11. Pennywise
  12. Society
  13. (Intro) As Long as We Can
  14. Perfect People
  15. Living for Today
  16. Stand by Me (versão de Ben E. King)
  17. Bro Hymn

Créditos

Fotografia

Vitor Lage

Crítica

André Alonso

Local

Coliseu dos Recreios, Lisboa, Portugal