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A eletricidade falhou, permaneceu a Lua e a sua Alcateia!

Quinta da Ribafria, Sintra — 12 de setembro de 2026

Há concertos que começam com tudo planeado e há outros que, logo nos primeiros minutos, obrigam uma banda a adaptar-se. O concerto dos Moonspell na Quinta da Ribafria teve um pouco dos dois. Pensado para ser uma noite especial e mais próxima do público, acabou por ficar marcado por um imprevisto técnico logo no arranque — e pela forma como a banda conseguiu ultrapassá-lo.

A escolha da Quinta da Ribafria não poderia ser mais adequada para uma noite dedicada aos Moonspell. Entre a arquitetura histórica, a envolvência de Sintra e um cenário naturalmente marcado pelo imaginário gótico, o espaço criou desde cedo uma atmosfera muito própria. Não era uma arena, nem uma sala de concertos convencional: era um palco intimista, rodeado por história, onde a produção de luz dos Moonspell ganhou ainda mais impacto e foi, na minha ótica, o ex-libris da noite.

Depois da segunda interrupção na música de abertura, “Cross Your Heart”, a banda teve de abandonar o palco e o público ficou cerca de 25 minutos à espera. Não era o início que ninguém tinha planeado, mas a reação dos Moonspell foi a certa: resolver o problema e voltar ao palco para continuar o concerto como se aquela paragem fosse apenas mais um obstáculo a ultrapassar, como sempre fizeram ao longo da sua carreira, tal como pontuou Fernando Ribeiro.

Quando regressaram, “Far From God” e “Biblical” deram continuidade ao alinhamento e deixaram clara a importância do novo álbum na noite. Far From God esteve fortemente representado, sendo tocado na íntegra, incluindo quatro estreias ao vivo: “Your Promise of Light”, “For the Love of Mortals”, “Our Freedom to Fall” e “Reconquista”.

Mas, se o novo álbum marcou presença, Irreligious” foi o verdadeiro centro de gravidade do alinhamento. Nove dos temas tocados vieram do clássico de 1996, incluindo “Opium”, “Awake!”, “For a Taste of Eternity”, “Ruin & Misery”, “A Poisoned Gift”, “Raven Claws”, “Mephisto”, “Herr Spiegelmann” e “Full Moon Madness”. É, naturalmente, uma escolha particularmente adequada num ano em que a banda continua a revisitar uma das obras mais importantes da sua carreira e foi um dos motivos centrais desta reunião peculiar e intimista na Serra de Sintra.

Em específico, “Raven Claws” teve um momento que tornou esta noite ainda mais especial: Mariangela Demurtas subiu ao palco para participar no tema. Não se tratou de uma participação inédita — a cantora já tinha colaborado com os Moonspell precisamente nesta música em Lisboa Under the Spell — mas, num concerto desta dimensão e neste contexto, a sua presença merece ser destacada.

O alinhamento ainda recuperou dois clássicos de Wolfheart, “Vampiria” e “Alma Mater”, antes de a icónica “Full Moon Madness” fechar o concerto, música que Fernando Ribeiro declarou ser a mais representativa da carreira dos Moonspell aquando da nossa entrevista.

E foi precisamente aí que se percebeu que os 25 minutos de espera já pertenciam a outra parte da noite. O público tinha voltado a entrar no concerto, a banda estava completamente entregue e a produção visual acompanhava cada momento com uma precisão que fez das luzes um elemento essencial do espetáculo. Destaque também para toda a acústica do local e para o trabalho excecional de toda a crew na preparação deste momento ímpar.

No final, ficaram duas horas de Moonspell em Sintra, entre o passado, o presente e uma forte aposta no futuro da banda. Depois de um início atribulado, os Moonspell recuperaram a noite e entregaram um espetáculo próximo, pesado e visualmente ambicioso.