Antrisch é uma lufada de ar fresco na cena do black metal alemão, ou melhor, neste caso, um sopro de ar gélido. Formada em 2020, em Bayreuth, na Alemanha, a banda representa a agressividade crua do black metal, aliada a uma profundidade emocional quase sufocante, tornando-se um dos projetos mais promissores da cena alemã recente.
O nome “Antrisch” deriva do termo austro-bávaro (um dialeto regional) para “assustador” ou “estranho”, descrevendo algo misterioso, inquietante ou “do outro mundo”. Essas ideias refletem-se diretamente na sua sonoridade, que transporta o ouvinte para sensações de isolamento extremo, frio cortante e a luta desesperada do homem contra uma natureza indomável.
O projeto foi fundado por Maurice Wilson (vocais e compositor) e Robert “Bob” Z. (guitarras). Robert começou por compor material que se afastava do black metal tradicional, focando-se em paisagens sonoras mais cinzentas e atmosféricas. Para dar vida ao conceito lírico, centrado em explorações históricas, juntou-se a Maurice, cuja entrega vocal é marcadamente teatral e narrativa.
A banda conta já com três álbuns de estúdio e um álbum ao vivo, sendo que cada lançamento é concebido como uma verdadeira expedição sonora.
Atualmente, o line-up de Antrisch é composto por: Отто Шмидт – baixo, Robert Falcon Scott – guitarra, Maurice Wilson – vocais, Noel Ewart Odell – bateria e Alexander Gordon Laing – guitarra.
No passado dia 27 de março de 2026, lançaram o seu terceiro álbum de estúdio, “Expedition III: Renitenzpfad”, pela AOP Records.
Este trabalho marca uma mudança fascinante na narrativa da banda. Enquanto os capítulos anteriores se centravam no frio extremo e no gelo, este novo álbum transporta-nos para um cenário radicalmente diferente, mas igualmente mortal: a selva amazónica. A obra retrata a expedição de 1560 em busca de El Dorado, focando-se na descida de Aguirre à loucura, na violência, no motim contra a coroa espanhola e na luta constante contra a natureza hostil da Amazónia.
Em Expedition III: Renitenzpfad, os Antrisch trocam o isolamento branco da Antártida pela claustrofobia verde da selva. A sonoridade torna-se mais densa e orgânica. Curiosamente, apesar da temática estar ligada à história de Espanha, as letras são maioritariamente em alemão, surgindo apenas pequenos momentos narrativos em espanhol.
Vamos então entrar na densa selva criada por Antrisch.
“Conquista – Prolog” — O primeiro tema marca o início da expedição e a ambição em torno de El Dorado. Começa com elementos atmosféricos e ambientais que evocam a humidade da selva, construindo um cenário imersivo através de sonoridades com influência espanhola. Destacam-se os trémulos acústicos, que remetem para um violão espanhol, preparando o ouvinte para a violência que se segue.
“Hidalgo Infernal – Der baskische Wolf” — A letra explora a identidade de Aguirre antes da sua queda total. Mais do que um simples soldado, ele era um homem de pequena nobreza basca (hidalgo), consumido por um profundo ressentimento contra a coroa espanhola e por uma sede de poder absoluta.
A metáfora do lobo é utilizada para descrever o instinto predatório de Aguirre. Ele não está na selva para explorar, mas para caçar e dominar. O tema captura precisamente o momento em que deixa de ser um servo do rei para se tornar um tirano por conta própria.
A bateria de Noel Ewart Odell entra com intensidade elevada, sustentada por uma produção moderna que fustiga os ouvidos. Robert e Alexander disparam riffs rápidos e cortantes, que sobem e descem em escalas menores, criando uma sensação constante de urgência e perigo. O baixo de Otto sustenta todo o peso do tema, enquanto Maurice Wilson entrega alguns dos seus gritos mais viscerais. Aqui, ele encarna Aguirre por completo, soando como alguém que dá ordens no meio de uma batalha, ou de um delírio de grandeza.
“Nattern & Narren – Los Marañones I” — Era este o nome dado aos homens que seguiram Aguirre (em referência ao rio Marañón), e o tema foca-se na desintegração da confiança dentro da expedição. Na humidade estagnada do rio, os soldados começam a murmurar. Aguirre vê traidores em todo o lado “víboras” enquanto aqueles que o seguem cegamente são os “tolos”. É o momento em que a expedição deixa de ser uma missão militar para se transformar num culto de morte.
Musicalmente, o ritmo abranda consideravelmente em relação à faixa anterior. Entramos num black metal mais arrastado, com fortes influências de black doom. As guitarras apresentam um tom mais sujo e denso, como se estivessem presas no lodo do rio. A voz de Maurice torna-se mais sussurrada e sibilante quase como uma víbora, alternando com explosões de desespero que evocam a claustrofobia de uma floresta fechada.
“Bittergrün – Los Marañones II” — Este tema representa o ponto de rutura total do álbum. Se a primeira parte (Los Marañones I – Nattern & Narren) explorava a tensão entre os homens, aqui a banda mergulha de cabeça no horror biológico e no colapso mental.
A faixa inicia-se com uma viola acústica solitária, ecoando no vazio e reaparecendo ao longo de várias secções. Cria-se um contraste extremamente interessante e pouco convencional: há momentos em que blast beats surgem por trás dessa base acústica, gerando uma tensão única.
O título funciona como uma metáfora brilhante. O “verde” representa a exuberância da Amazónia, enquanto o “amargo” remete para a sua toxicidade, uma selva de plantas venenosas, insetos portadores de doenças e águas estagnadas que matam. Ao mesmo tempo, evoca a amargura do fracasso e a bílis que sobe à garganta quando o medo se torna físico.
Sonoramente, o tema desenvolve uma dissonância progressiva. As guitarras de Robert evitam qualquer conforto melódico, recorrendo a intervalos de trítono para criar uma sensação constante de instabilidade como se algo estivesse sempre errado. É uma tradução sonora da desorientação dos homens de Aguirre.
Em certos momentos, abre-se um vazio atmosférico: a parede de som colapsa, deixando apenas um baixo pulsante e percussões metálicas dispersas, como se estivéssemos a ouvir as alucinações de um soldado moribundo perdido na noite tropical.
Os vocais abandonam o registo de liderança e assumem um tom de pura agonia. Há passagens que soam como as últimas anotações de um diário manchado de lama e sangue.
“Abkehr – Non Sufficit Orbis” — Este é o momento da ascensão maníaca. É aqui que Lope de Aguirre atinge o ponto de não retorno.
O título combina duas ideias poderosas: “Abkehr” (renúncia/afastamento) e a frase latina “Non sufficit orbis” (“o mundo não basta”), lema associado a Filipe II de Espanha ,precisamente o rei contra quem Aguirre se revoltou. Lope de Aguirre acabaria por se rebelar contra a coroa, tomando o controlo da expedição e declarando-se traidor, num dos episódios mais extremos da história da conquista .
Nesta fase da narrativa, Aguirre já não procura apenas ouro. Ele escreve a sua famosa carta ao rei, declarando-se independente e assumindo-se como “a Ira de Deus”. Renuncia à sua pátria, à sua fé e, simbolicamente, à sua própria humanidade.
O uso do lema torna-se profundamente irónico: ao afirmar que “o mundo não basta”, Aguirre sugere que nem o império do rei nem a própria Terra são suficientes para conter a sua vontade e a sua fúria.
Sonoramente, o tema é épico e expansivo, abrindo-se em camadas melódicas amplas. Há uma sensação de grandiosidade que reflete a megalomania de um homem que se vê como divino. Os riffs são simultaneamente triunfantes e trágicos, carregados de uma melancolia heroica. Não se trata de uma vitória gloriosa, mas da afirmação de alguém que decidiu morrer de pé, queimando todas as pontes atrás de si.
No final, surge uma narração que se destaca como um dos momentos mais arrepiantes e cinematográficos de todo o álbum. Funciona como um verdadeiro “selo de condenação”. A voz, em espanhol, representa a leitura da carta de rebelião enviada por Aguirre a Filipe II em 1561, reforçando o peso histórico e simbólico do momento.
“Verschanzt – Perleneilandterror” — Aqui, a narrativa transporta-nos para o momento em que Aguirre e os seus “Marañones” chegam à Isla de Margarita, na atual Venezuela.
Nesta fase, Aguirre já não é um explorador, é um senhor da guerra consumido pela paranoia. Instala um regime de terror absoluto, ordenando a execução de governadores, oficiais locais e até dos seus próprios homens ao menor sinal de dúvida. A sua liderança torna-se uma espiral de violência e desconfiança, refletindo um homem completamente fechado na sua própria mente, onde cada sombra esconde um inimigo .
O tema incorpora uma narrativa em alemão que simula um testemunho ou crónica da chegada dos “Marañones” à ilha, acrescentando uma dimensão quase documental ao caos.
Musicalmente, a bateria de Noel assume um tom mais marcial e implacável, evocando uma marcha sem piedade. A abordagem é mais direta, com riffs que remetem para o black metal da segunda vaga, mas executados com uma precisão técnica característica. O som torna-se mais seco e cortante, refletindo a ausência total de empatia de Aguirre.
A produção introduz elementos que reforçam uma sensação constante de urgência, como se tudo estivesse prestes a colapsar. A performance vocal de Maurice é particularmente agressiva, encarnando o terror vivido tanto pela população da ilha como pelos próprios soldados, todos sob o comando de um homem que mata por capricho.
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