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GAEREA – LOSS

A banda portuguesa Gaerea, formada em 2016, destacou-se desde cedo como uma das propostas mais interessantes do metal extremo contemporâneo nacional. Desde a sua fundação, evidenciou-se pela agressividade aliada a uma forte componente atmosférica e emocional, construindo uma sonoridade que sempre ultrapassou os limites do black metal tradicional, a sua base, incorporando elementos de post-black metal, blackgaze e até ambiências melancólicas características de outros géneros do metal moderno.

Ao longo da última década, os Gaerea têm vindo a consolidar a sua posição, tanto em território
nacional como internacional, através de uma discografia consistente e de uma identidade visual
marcante, onde os membros mantêm o anonimato. Com o crescimento da banda, surgiu também
uma evolução e transformação sonora. É neste contexto que apresentam o novo disco, intitulado
Loss, já produzido e editado pela Century Media Records, editora à qual se associaram em agosto
de 2025, aquando do lançamento do primeiro single, “Submerged”.

Este primeiro avanço já revelava uma metamorfose sonora que vinha a ser desenvolvida desde Mirage, introduzindo novas texturas e dinâmicas ao seu black metal contemporâneo, sem perder a intensidade e carga emocional características. A mudança para a Century Media poderá também ter influenciado esta evolução, tendo em conta o histórico da editora em incentivar transformações sonoras em várias bandas. Exemplos disso são Arch Enemy, que passaram a incorporar refrões mais acessíveis e orientados para grandes palcos; In Flames, que evoluíram do melodeath para incluir elementos de metal alternativo e eletrónica; e Paradise Lost, que protagonizaram uma das mudanças mais marcantes ao transitar do doom metal para o gothic/synth rock. Neste sentido, os Gaerea encaixam perfeitamente nesta editora, que parece acompanhar e potenciar a sua evolução artística.

Essa transformação materializa-se em Loss, um álbum que segue a filosofia de “ mudar sem mudar”. Se essa abordagem já era percetível nos singles lançados (“Submerged”, “Hellbound”,“Phoenix” e “Nomad”), torna-se ainda mais evidente ao longo de todo o disco.

O álbum abre com “Luminary ” , que mantém a linha dos singles: agressivo, com um refrão melódico e um riff pós-refrão marcante e memorável, uma das melhores faixas do disco. Seguem-se “ Submerged ” e “Hellbound” , dois singles já bem conhecidos, e depois “Uncontrolled”, que mantém a agressividade e energia das faixas anteriores.

A primeira verdadeira surpresa surge em “Cyclone”, após o terceiro single “Phoenix” (aquele “Blegh” é fenomenal). Trata-se de um tema que introduz os primeiros vocais limpos, num registo quase de balada, acompanhado por guitarra acústica e uma atmosfera melancólica. No entanto, a música evolui rapidamente para territórios mais pesados, contrariando essa primeira impressão, com um refrão também interpretado em voz limpa. A sétima faixa, “LBRNTH”, funciona essencialmente como uma intro de cerca de dois minutos para “Nomad” , o último single revelado pela banda, e que claramente é um dos hinos deste trabalho dos Gaerea.

O álbum encerra com “Stardust”, possivelmente a grande estrela do disco, e que tive a oportunidade de ouvir antecipadamente. Começa de forma calma, com uma forte carga melancólica e um piano que encaixa de forma perfeita na composição. Mais uma vez, a expectativa de uma balada é quebrada com uma evolução para um registo mais pesado, culminando num final épico, novamente acompanhado por piano. É, sem dúvida, uma das faixas mais marcantes do álbum. Num comentário pessoal, sempre que a ouço, sinto um arrepio, algo raro, mas extremamente positivo. É uma música que se sente profundamente.

Resumindo, Loss tem tudo para ser um dos discos mais falados da música extrema, tanto a nível nacional como internacional. Os Gaerea arriscaram, refinaram as melodias, mantiveram a melancolia e os temas que os caracterizam e, acima de tudo, parecem ter criado uma identidade sonora ainda mais própria e distintiva. É um álbum que prende o ouvinte do início ao fim e, tal como os singles demonstraram qualidade, as restantes faixas não ficam atrás. Loss é uma verdadeira obra de arte.

Portugal é frequentemente associado a três F’s, Fado, Futebol e Fátima, talvez seja altura de acrescentar um “G” de Gaerea. Mudar o estilo sem perder a essência é algo ao alcance de poucos, e esses poucos são, normalmente, nomes grandes da música pesada internacional. Bring Me The Horizon evoluíram e tornaram-se gigantes, Architects expandiram o seu som e cresceram ainda mais, tal como Linkin Park e Deftones, que também se reinventaram com sucesso.

Músicas em destaque: Submerged, Hellbound, Phoenix, Nomad e Stardust (5 em 9 uma
escolha difícil, já que todas mereciam destaque)

Ricardo Ferreira

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Ricardo Ferreira

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