Domingo é, para muitos, um dia sagrado. Na República da Música, em Lisboa, celebrou-se uma verdadeira liturgia negra com os polacos Batushka, numa noite onde não faltou peso, incenso imaginário e momentos transcedentais. À chegada, era impossível não reparar logo, na longa fila para o merch oficial, que em certos momentos parecia até ultrapassar a plateia frente ao palco, sinal claro de culto.
A abrir o ritual, os Gnosis, banda recente vindos de Setúbal, deram meia hora de Black Metal melódico, com intensidade ritualista para uma banda tão recente. Quem aprecia o lado mais atmosférico de Gaerea ou UADA terá encontrado aqui ecos familiares. A última faixa, “Noite”, com o seu respirar em português, trouxe um fecho arrepiante e bem conseguido.
Seguiram-se os já veteranos Okkultist, liderados pela magnética Beatriz Mariano, com o seu Death Metal enegrecido e enraivecido. Embora a plateia não tenha rebentado em moshpits, não faltaram momentos em que o palco parecia implorar por isso. A banda soube manter a energia em alta, com destaque para o cover de Children of Bodom (“Sixpounder”) onde o guitarrista Leandro Sandmeier brilhou como verdadeiro virtuoso.
Mas a verdadeira missa começou quando Krzysztof Drabikowski e os seus Batushka subiram ao altar. No palco, um caixão, pinturas dos álbuns Litourgiya e Panihida, e velas acesas criaram um cenário solene e quase sacro. Ver Batushka ao vivo é entrar num espaço entre o profano e o divino, onde riffs dissonantes, coros sacros, blast beats e vocais torturados constroem uma experiência quase extracorporal.
A banda interpretou Panihida (2019) na íntegra, com direito a quatro faixas do seminal Litourgiya (2015). Bastaram os primeiros acordes destes clássicos para que a sala entrasse em transe, mãos erguidas, cabeças a oscilar em reverência. A componente visual, com luzes e sombras a acompanhar o crescendo da música, reforçou a sensação de estarmos num ritual.
Para um domingo à noite, foi tudo menos um descanso espiritual. Foi uma comunhão sombria, um bálsamo para almas atormentadas, e uma afirmação de que o Black Metal ainda sabe ser cerimónia. Fica a vontade de mais: mais material, mais visitas litúrgicas, mais fé negra.
Até à próxima missa.
Agradecimentos: FreeMusic
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