Fazia mais de duas décadas que os Dead Kennedys não pisavam solo português (desde 2002, para ser exato) e decidiram regressar num dia de S. João, a fim de oferecer um recital sarcástico e suado de hinos que ajudaram a moldar o punk mundial.
Para abrir as hostilidades, tivemos os históricos Albert Fish, com trinta anos de carreira e zero vontade de abrandar. A energia de Inês Bass enquanto vocalista contagiou o LAV, puxando pelo público com o seu humor e presença a puxar pelo público. Músicas como “Save the Planet”, “Shut Your Mouth” ou “Wake Up” ajudaram a aquecer o público para o que se seguiria. Para terminar, “Sindelar” acendeu os primeiros moshes da noite, com aquela urgência punk que pede cabeças a abanar.
Os Dead Kennedys não precisam de apresentações, mas é precisam de ser vividos. E o que se viveu ali foi uma verdadeira missa punk. Com várias gerações de crentes lado a lado, em pogo contínuo, a suar ao som de canções que continuam, infelizmente, demasiado atuais.
Skip Greer, vocalista desde 2008, não tenta imitar o Jello Biafra, mas honra-lhe o espírito com carisma e teatralidade. Entre sarcasmos sobre o inglês do público e provocações em tom de stand-up incendiário, conseguiu manter o palco animado. Os seus companheiros: East Bay Ray na guitarra ácida, Klaus Flouride no baixo esquelético e Steve Wilson na bateria, mostraram que a máquina ainda ruge.
Houve também um momento de tributo ao falecido D.H. Peligro (baterista histórico, falecido em 2022), que trouxe uma pausa emocional num mar de sarcasmo. Mas a seguir vieram mais faíscas.
“Police Truck”, “Kill the Poor”, “Holiday in Cambodia”, “Too Drunk to Fuck”, “Nazi Punks Fuck Off” e “California Uber Alles” — todos eles acompanhados de suor, gargalhadas e crowdsurf.
E como se não bastasse, ainda houve dois encores — com direito a “Viva Las Vegas” e um “Sweet Home Alabama”.
Não é todos os dias que se vê uma banda que foi, é e continuará a ser um dedo espetado no olho do status quo.
No LAV, os Dead Kennedys provaram que a idade não matava o espírito. Apenas o afina com acidez e distorção. E isso ficou claro entre o mosh e o riso:
O punk não morreu, mas ainda bem porque continua corrosivo e necessário.
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