No passado dia 1 de novembro, o Cine Incrível, em Almada, recebeu o Afternoon of Chaos, um evento que reuniu três bandas numa tarde dedicada ao metal e à cena underground.
Com um ambiente intimista e acolhedor, o espaço revelou-se perfeito para a ocasião. Entre lugares sentados, um bar e um público composto por fãs, amigos e famílias, o Cine Incrível proporcionou uma experiência descontraída e próxima dos artistas. Longe das multidões dos grandes concertos, encontrei um ambiente onde a música pesada convivia naturalmente com conversas, bebidas e momentos partilhados entre amigos.
A abrir a tarde estiveram os Suicide Society, banda de metal que trouxe consigo uma energia que parecia saída directamente dos anos 80. Com uma sonoridade bem trabalhada, temas elaborados e uma presença de palco marcante, apresentaram uma actuação que me transportou para uma época em que o rock e o metal tinham uma identidade muito própria. Enquanto João Pastro assumiu o baixo naquela que seria a sua última actuação com a banda, após o anúncio da sua saída.
A ligação com o público também não passou despercebida. Entre fãs vestidos com t-shirts da banda e palhetas atiradas para a plateia, ficou evidente a proximidade dos Suicide Society com quem acompanha o seu percurso. Foi impossível não sentir uma espécie de viagem no tempo. Os músicos não pararam um segundo e a energia manteve-se do início ao fim. Saí desta primeira actuação com uma vontade clara de voltar a vê-los ao vivo.
A segunda actuação da tarde ficou a cargo dos Awen, banda de metalcore que trouxe uma mistura de sonoridades e uma identidade visual bastante marcante ao palco do Cine Incrível. A presença do vocalista, tanto pela postura como pelo estilo de roupa, fez-me recordar Chester Bennington, dos Linkin Park. Mas foram os dois guitarristas que realmente captaram a minha atenção. Com uma presença de palco intensa, percorriam o palco de um lado ao outro, enquanto um deles, de máscara e com roupas de inspiração quase ritualística, acrescentava uma dimensão visual particularmente interessante à actuação.
Confesso que o metalcore não é propriamente o género que mais procuro ouvir, mas os Awen têm algo diferente. Entre os riffs, a energia dos músicos e a constante interação com o público, a banda mostrou uma personalidade que me deixou curioso para conhecer melhor o seu trabalho. Os constantes apelos à plateia, acompanhados pelo já familiar grito de “VAMOS LÁ, ALMADA!”, ajudaram a incendiar o ambiente. Os Awen são, sem dúvida, uma banda a ter debaixo de olho.
A encerrar a tarde estiveram os Veildog e, desde os primeiros momentos, foi possível perceber a intensidade daquilo que estava para vir. Com uma sonoridade de thrash metal que me fez recordar os primeiros anos dos Metallica, a banda trouxe ao palco uma combinação de atitude, velocidade e energia difícil de ignorar. Os Veildog têm vindo a ganhar destaque no panorama nacional, tendo lançado o seu EP de estreia, Appetites, no início de 2026, e vencido a final do Laurus Metal Battle 2026. Posso dizer, sem hesitar, que foram uma das melhores bandas que ouvi ao vivo em muito tempo.
Nem os imprevistos conseguiram interromper o ritmo durante muito tempo. A meio da actuação, uma das cordas da guitarra de Gustavo Carneiro partiu, obrigando a uma pausa para resolver o problema. Ou melhor, uma pausa entre muitas aspas: enquanto Gustavo tratava da guitarra, os restantes elementos aproveitaram para assumir o protagonismo com uma demonstração individual, mantendo a atenção do público. Resolvido o contratempo, a banda retomou a actuação e terminou com uma energia impressionante, deixando o palco praticamente em chamas. Foi uma daquelas actuações que nos fazem querer acompanhar de perto o percurso de uma banda.
O Afternoon of Chaos terminou com três propostas distintas, mas unidas pela mesma paixão pela música pesada. Saio do Cine Incrível com a sensação de que o metal continua a encontrar espaço para crescer, especialmente nos pequenos palcos e junto de quem mantém a cena underground em movimento. Fala-se muitas vezes da morte do rock e do metal, mas o que vi naquela tarde, em Almada, foi precisamente o contrário.
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