Reviews de Shows

SONIC BLAST 2026 – SEGUNDO DIA E TERCEIRO DIA

DIA 2

Uma vez mais, a festa começou cedo no Sonic Blast, que oferece ao público cerca de 12 horas de música sem parar. Neste caso, a primeira banda do segundo dia da 14.ª edição do Sonic Blast foi nada mais, nada menos do que os conceituados portugueses Jesus the Snake. Apresentaram o seu Rock Psicadélico bem estruturado e relaxado, com ótima qualidade e energia perante o público, demonstrando o motivo pelo qual são uma das bandas que mais têm crescido dentro da sonoridade do Rock Psicadélico em Portugal.

A tarde continuou com os HÖG, oriundos de Portland, nos EUA, que têm conquistado espaço na cena underground com o seu som pesado e psicadélico. Desta vez não foi exceção: realizaram uma ótima apresentação do seu Stoner/Rock Psicadélico, com pitadas de Motörhead.

Infelizmente, os Dead Meadow tiveram de cancelar o concerto devido a um problema de saúde de um dos integrantes, tendo sido substituídos pelos Clamm, que já tinham atuado no dia anterior e que, desta vez, tocaram no Palco 1.

A tarde já ia quase a meio e começava novamente a levantar-se a areia de Vila Praia de Âncora, com os gigantes Voivod. Formados em 1981 e originários do Quebec, no Canadá, e considerados um dos grandes nomes do Thrash Metal mundial, apresentaram um excelente e agressivo concerto. Uma das bandas mais acarinhadas pelo público português marcou presença pela primeira vez no Sonic Blast.

Foi um concerto diferente dos Voivod devido à presença de Eric Forrest na voz, uma vez que Snake não pôde comparecer nesta tour. Um concerto rápido, com riffs viciantes e experimentais, que apresentou temas desde os clássicos, com um estilo mais próximo do Speed Metal, até à sonoridade mais atual. Um concerto onde a energia e a rapidez não faltaram e que foi um dos mais marcantes da edição, principalmente para o público musicalmente mais extremo.

Após a tempestade que os Voivod apresentaram, o público já estava agitado e o sol começava a baixar cada vez mais. Neste caso, quem baixou quase totalmente o sol foram os Conan, com os seus riffs letais. Os britânicos, diretamente de Liverpool, apresentaram uma sonoridade completamente esmagadora, com o seu Doom Metal misturado com algum Sludge.

Os seus riffs lentos, mas letalmente pesados, fizeram o público render-se à sua atuação. Apresentaram, no ecrã do palco, vídeos do filme Conan, o Bárbaro, fazendo com que o público ganhasse cada vez mais espaço no terreno, com um gigante mosh pit.

A rapidez surgiu, mas o peso dos riffs não diminuiu, o que fez da sua apresentação um ato violento que não deixou ninguém indiferente. A nível de intensidade e peso, foi, sem dúvida, um dos melhores concertos da edição. O público rendeu-se aos Conan, mas, a seguir, a velocidade e a violência continuaram de uma forma totalmente diferente.

Entraram em palco os conceituados Casualties, representantes do Punk Old School. Desde as ruas de Nova Iorque até aos palcos minhotos, trouxeram toda a atitude Punk na bagagem. Desde o visual dos próprios elementos até à atitude, às letras e à sonoridade, era tudo Punk.

Colocaram todo o público numa agitação sem fim, com o vocalista David Rodriguez a puxar cada vez mais pelo público através da sua participação em Wall of Deaths e mosh pits, chegando mesmo a saltar da torre das colunas diretamente para o público. Apresentaram os seus clássicos e também alguns temas mais recentes, proporcionando um concerto totalmente memorável para qualquer um dos que estiveram presentes.

Já pela noite dentro, os Kylesa apresentaram o seu Sludge com alguns traços de Rock Psicadélico. Os americanos, formados em Savannah, na Geórgia, apresentaram uma excelente performance, onde os vocais variavam entre Laura Pleasants e Phillip Cope. Uma banda que atraiu imensa atenção do público enquanto este aguardava pelos headliners do segundo dia da 14.ª edição do Sonic Blast.

O prato principal do segundo dia deste Sonic Blast foram os Turbonegro. A mítica banda de Sleaze Rock conta com uma legião de fãs, os Turbojugend, algo parecido com o KISS Army, que já andavam pelo Warm Up e estavam presentes pelo festival.

Já faz 20 anos desde a última vez que os Turbonegro vieram a Portugal e a malta já estava com sede da pureza do Rock que eles trazem.

O gig começou com “Back to Dungaree High”, do Apocalypse Dudes, seguindo para o registo mais recente, apesar de ser de 2018, com “Part III: Rock ‘n’ RollMachine” e “Hurry Up & Die”, que já serviram para bem aquecer as hostes.

Foi a partir de “Get It On” que se pôde dizer que a festa estava em altas. Tocando clássicos como “City of Satan”, “Boys from Nowhere”, “All My Friends Are Dead” e “Prince of the Rodeo”, o Rock ‘n’ Roll nunca deu descanso na Vila da Praia de Âncora.

Tivemos ainda um mimo, que foi o encore. Na expectativa de ainda ouvir “I Got Erection” e “Age of Pamparius”, tivemos “Fuck the World”, que deu início a este encore de luxo. Foi a chave de ouro para os fãs de Turbonegro, com o som impecável. E, apesar de ainda haver mais bandas para ver, a festa nunca acaba.

Os Deathchant, originários de Los Angeles, nos EUA, apresentaram um Heavy Rock inspirado em alguns clássicos como Thin Lizzy e Motörhead. Conseguiram agitar ainda mais o público e continuar com energia pela noite dentro, abrindo o entusiasmo para a banda seguinte.

Neste caso, os Goya, oriundos de Phoenix, Arizona, nos EUA, formados em 2011, apresentaram o seu Stoner, que animou o público até ao último riff.

A noite terminou com N8noface, com uma sonoridade totalmente alternativa e diferente das restantes bandas. Um projeto formado apenas por um elemento, que apresentou o seu Synth-Punk, um género musical que mistura a energia crua e rebelde do Punk Rock com os sons eletrónicos dos sintetizadores e das caixas de ritmos.

DIA 3

O cansaço chegava cada vez mais ao público, mas nada o abatia. Estava tudo pronto para mais um incrível dia de Rock Psicadélico, Doom, Stoner, entre outros estilos, em Vila Praia de Âncora.

Para abrir o dia, os responsáveis foram os Summer of Hate, que vieram substituir os Levitation Room. A banda portuguesa, oriunda do Porto, com traços de Rock Psicadélico e Shoegaze, foi uma forma doce de começar o dia.

Primitive Ring, a segunda banda do dia, manteve a fasquia elevada no início da tarde. Aumentaram o ritmo com uma atuação sólida, de tom mais denso e cadenciado. Serviram de ponte perfeita para o peso que se seguiria, segurando a atenção de um público que ainda chegava ao recinto.

Seguiu-se Margarita Witch Cult, um dos primeiros grandes momentos do último dia do festival. O trio britânico entregou um concerto magnético e recheado de riffs assentes no Stoner/Doom clássico. Com uma energia contagiante e um groove contínuo, puseram todo o recinto a abanar a cabeça e criaram os primeiros movimentos sérios na frente do palco, já a fazer o “aquecimento” para a violência que se seguia.

Agressão pura e dura foi o que os californianos Necrot trouxeram a Âncora. O Death Metal mais cavernoso, direto e sem artifícios do alinhamento. A banda não deu tréguas, incitou o crowd surfing sem parar e gerou um dos pits mais violentos e dados à pancadaria do festival.

A execução técnica foi impecável dentro do género, sendo provavelmente o concerto mais violento e bruto do festival, que agitou todo o público. Uma das melhores surpresas da 14.ª edição do Sonic Blast.

Os gregos 1000mods vieram acalmar um pouco o público depois da guerra feroz que os Necrot conseguiram criar. Apresentaram o seu Stoner, acabando por ser também psicadélico, numa ótima apresentação e com uma excelente relação com o público.

Já de noite, vieram os Teen Mortgage, dando um choque de energia no Palco 2. O duo norte-americano surpreendeu pelo volume e pela entrega. O seu Garage/Fuzz, altamente ritmado e incisivo, meteu a multidão a dançar e a saltar do primeiro ao último segundo, provando a eficácia do formato minimalista.

O grande destaque técnico da noite esteve entregue aos Elder. Apresentando temas do novo trabalho, Through Zero, a banda entregou uma performance hipnótica, fluida e imersiva. A sobreposição de camadas de guitarra, as dinâmicas progressivas e a precisão milimétrica demonstraram por que razão são uma das bandas mais respeitadas do circuito Prog atual.

Provavelmente a banda mais esperada da noite e bastante querida pelo público português, os High on Fire trouxeram agressão sónica no seu estado mais puro. Matt Pike e companhia, com Ben Koller, dos Converge, na bateria, e Jeff Matz no baixo, desferiram uma autêntica muralha de som a volumes abusivos. Uma atuação devastadora, visceral e sem espaço para pausas, impulsionada por clássicos como “Rumors of War”, “Baghdad” e “Snakes for the Divine”.

Seguiram-se os Adult, com um desvio estético e a grande surpresa da madrugada. Ao trocar as guitarras e o Fuzz pela eletrónica fria, agressiva e pulsante, de contornos góticos/Post-Punk, o duo ofereceu uma lufada de ar fresco necessária e meteu o público a dançar num ambiente totalmente diferente.

Para terminar o Palco 1, os Early Moods apresentaram um regresso às raízes do Heavy Metal e do Doom tradicional. Mesmo com a ameaça de chuva a fechar a noite, a banda manteve o público agarrado ao palco, com riffs pesados, solos emotivos e uma postura de palco muito forte, herdada da velha escola dos anos 70 e 80. Uma delícia para os fãs de Pentagram e Candlemass.

E, para fechar, contámos com os Ungraven, projeto de Joe, dos Conan, que mistura a densidade do Drone com sintetizadores, fechando assim o festival com uma mancha sonora lenta e esmagadora e deixando o público completamente de rastos após três dias de maratona sónica.

Considerações finais

O Sonic Blast é um festival com um ambiente único e uma atmosfera verdadeiramente especial, onde as ondas do mar e a areia da praia se fundem com a boa disposição do público, criando um cenário perfeito para celebrar a música. A sua sonoridade apresenta uma enorme diversidade, passando pelo Rock ‘n’ Roll, Stoner, Rock Psicadélico, Doom e chegando ao Death Metal mais letal, agradando certamente aos mais variados públicos dentro desta incrível cena que é o Metal.

Foi, sem dúvida, uma das edições mais memoráveis do festival, marcada por grandes concertos, muita energia e momentos que ficarão na memória de todos os que tiveram a oportunidade de estar presentes.

Vemo-nos para o ano! Agradecemos à equipa do Sonic Blast pela oportunidade e por mais uma vez proporcionar um festival de excelência, onde a música, o público e o ambiente se unem de forma única.

Gonçalo Januário

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