Após uma década de ausência dos palcos portugueses, os britânicos Uncle Acid and the Deadbeats regressaram finalmente a Lisboa para uma atuação única no passado dia 12 de junho, no LAV. Este concerto marcou não só o regresso da banda a Portugal , mas também a sua estreia absoluta na capital portuguesa, proporcionando aos fãs lisboetas a primeira oportunidade de mergulhar ao vivo no obscuro e hipnótico universo sonoro que transformou o grupo numa das maiores referências do rock psicadélico contemporâneo.
A noite contou ainda com a presença dos portugueses Madmess e dos suíços Dirty Sound Magnet, duas bandas que contribuíram para elevar ainda mais o nível de um cartaz que prometia uma viagem intensa por diferentes vertentes do rock psicadélico, progressivo e alucinante.
MADMESS
Responsáveis por abrir a noite, os portuenses Madmess mostraram desde cedo porque são um dos nomes mais interessantes da cena psicadélica nacional. Com uma atuação intensa e envolvente, a banda conduziu o público por uma viagem sonora repleta de riffs hipnóticos, passagens atmosféricas e improvisações inspiradas, conquistando a atenção do publico que ia chegando e adentrando o recinto.
Com uma prestação sólida e cativante, a banda apresentou três faixas do seu mais recente trabalho, The Third Coming, o terceiro álbum da sua carreira. O concerto teve início com a hipnotizante “Death by Astonishment”, seguindo-se “Widowmaker” e “Endless Cycles” deu tempo ainda de encerrar com “Stargazer” que encerra o álbum Rebirth e encerrou o concerto fabuloso dos Madmess , num alinhamento que evidenciou toda a qualidade e maturidade musical do grupo. Foi uma atuação envolvente que preparou da melhor forma o terreno para a chegada dos aguardados Uncle Acid and the Deadbeats.
DIRTY SOUND MAGNET
Os suíços Dirty Sound Magnet não são propriamente desconhecidos do público português. Depois de várias passagens por Portugal nos últimos anos, a banda construiu uma relação especial com os fãs nacionais, regressando regularmente aos nossos palcos e conquistando uma sólida reputação graças às suas atuações intensas e imprevisíveis. A sua presença como convidados especiais nesta noite acabou por reforçar ainda mais essa ligação, perante uma audiência que já os recebeu como velhos conhecidos.
Já com a sala bem composta, Stavros Dzodzos roubou as atenções com o seu carisma, irreverência e inegável sex appeal. Entre solos, sorrisos e uma constante interação com o público, o vocalista e guitarrista demonstrou porque é uma das figuras mais marcantes dos Dirty Sound Magnet em palco. Logo nos primeiros momentos da atuação, anunciou que a banda regressará a Portugal já em novembro, prometendo um espetáculo mais longo e completo do que a hora que tiveram disponível nesta noite, notícia que foi recebida com entusiasmo pelos presentes.
Ao lado de Marco Mottolini no baixo e Maxime Cosandey na bateria, os Dirty Sound Magnet demonstraram uma química impressionante em palco, entregando uma verdadeira explosão de criatividade e talento. A banda apresentou um caldeirão sonoro onde blues, rock progressivo, rock psicadélico e fortes influências setentistas se fundiram de forma natural e envolvente. Os riffs e solos surgiam carregados de feeling, enquanto o trio, por diversos momentos, parecia mergulhar em jams tão inspiradas quanto hipnotizantes, preenchendo cada canto da sala com uma energia contagiante e uma impressionante potência sonora.
Entre os destaques do alinhamento estiveram “Power of This Song”, que abriu o concerto da melhor forma, bem como “Dead Inside” e “Calypso”, três temas retirados do recém-lançado Me and My Shadow, editado em janeiro deste ano. Houve ainda espaço para a já clássica “Mr. Robert”, um dos momentos mais celebrados pelo público presente, que acompanhou a banda com entusiasmo do início ao fim.
No final, ficou a sensação de que uma hora soube a pouco e o inevitável sentimento de querer mais. Felizmente, essa vontade deverá ser saciada já em novembro, quando os Dirty Sound Magnet regressarem a Portugal para concertos em Lisboa e no Porto.
UNCLE ACID AND THE DEADBEATS
Formados em 2009 na cidade inglesa de Northampton, os Uncle Acid and the Deadbeats tornaram-se uma das maiores referências do rock contemporâneo de inspiração setentista graças à sua mistura única de psicadelismo doom, heavy rock e atmosferas obscuras. Com álbuns marcantes como Blood Lust e Mind Control, a banda conquistou uma legião de seguidores através de uma identidade sonora singular, marcada por riffs hipnóticos, melodias assombradas e uma estética profundamente influenciada pelo cinema de terror e pela contracultura dos anos 60 e 70. Em 2024, o grupo regressou aos discos com Nell’ Ora Blu, trabalho que reafirma a sua capacidade de evoluir sem abdicar da essência que os tornou um verdadeiro fenómeno de culto, eleito aqui pelo Media Junkbox um dos principais álbuns de 2024.
O reencontro com o público português era aguardado com grande expectativa, e o LAV esteve muito perto de esgotar a Sala 2, num ambiente de enorme adesão por parte dos fãs. As 22:10 pontualmente os britanicos subiram ao palco para iniciar os primeiros riffs de “Mt. Abraxas” e foi uma decisão perfeita, logo depois, “Waiting For Blood” elevou a intensidade e mostrou que a banda estava determinada a não deixar o ritmo cair.
A secção intermédia foi, muito provavelmente, o ponto mais forte da atuação. Kevin Starrs esteve irrepreensível na voz e guitarra, enquanto a excelente sonoridade do Lisboa ao Vivo valorizou cada detalhe dos riffs densos e das harmonias psicadélicas da banda. Temas como “Crystal Spiders”, “Don’t Let It Control You” e “Pusher Man” formaram uma sequência irresistível de grooves envolventes, melodias avassaladoras e atmosferas hipnóticas, perante um público que respondeu na medida certa, completamente rendido ao magnetismo do coletivo britânico.
Os momentos finais foram absolutamente demolidores. “Only Death Is Your Handcuff” mergulhou a sala numa atmosfera quase ritualística, preparando o terreno para “I’ll Cut You Down”, provavelmente o tema mais aguardado da noite. Foi nesse momento que o público presente veio abaixo, pessoas que estavam no exterior da sala, a fumar ou simplesmente a pegar um ar fresco, largaram tudo e correram para o interior ao reconhecer os primeiros acordes do tema. Um verdadeiro fenómeno digno dos Santos Populares, daqueles que nem o próprio Toy seria capaz de provocar.
O encerramento com “No Return” deixou a sensação de que a viagem tinha chegado ao fim da forma mais sombria possível, encerrando o espetáculo com classe e coerência e confirmando o porquê de os Uncle Acid and the Deadbeats serem uma das bandas mais respeitadas do underground psicadélico e doom contemporâneo. Sem grandes discursos ou truques de palco, entregaram cerca de 90 minutos de riffs hipnóticos, melodias obscuras e uma identidade única. Para muitos dos presentes, foi um daqueles concertos que ficam na memória durante anos.
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