Fotos: João Fitas
O Laurus Nobilis fechou este ano a sua 11ª edição com um veredicto claro: quem faltou, perdeu. Entre 16 e 18 de julho, a Casa do Artista Amador, no Louro, Vila Nova de Famalicão, recebeu três dias de música pesada com Swallow the Sun, Abbath e Atrocity a encabeçar o cartaz e um dia 19 completamente esgotado. O Media Junkbox esteve presente do início ao fim, warm up incluído.
Ao longo da sua história, o festival já trouxe a Famalicão nomes sonantes como Manowar, Septicflesh e Vader. O cartaz deste ano manteve a fasquia alta, com uma edição recheada de boas surpresas do início ao fim.
O festival realiza-se na freguesia do Louro, em Vila Nova de Famalicão, na Casa do Artista Amador.
Manteve, como nas edições anteriores, dois palcos: o Main Stage e o Palco Super Bock , este último, apesar do nome de “palco secundário”, entregou algumas das melhores atuações que vimos no festival.
Já lá iremos.
Havia uma zona de restauração ampla, com mesas suficientes para comer com calma, comida entre 1,5€ e 10€, e bebidas a preços justos, desde cerveja, sangria (da boa) e hidromel incluídos. Merch oficial do festival e das bandas, uma barraca de CDs e outros acessórios, e vários pontos de água potável e lavagem de copos espalhados pelo recinto completavam a oferta.
O sistema é 100% cashless. Depois de carregar a pulseira num balcão com atendimento (onde também se podia pagar em dinheiro) ou em duas máquinas com pagamento multibanco ao lado, o saldo ficava disponível para consulta a qualquer momento. As máquinas foram, de longe, a opção mais usada por nós: menos fila, mais rapidez. Segundo a organização, o sistema ainda estava em fase de testes; a avaliar pelo feedback positivo, é bem provável que a edição de 2027 traga mais máquinas destas.
O campismo gratuito, reservado a quem tem pulseira, fica a 5-10 minutos a pé do recinto, junto a restaurantes, cafés e supermercados. Lá dentro, casas de banho sempre limpas e sempre com papel, um detalhe que nem sempre se encontra noutros festivais. Zona de duches, churrasqueira para quem não dispensa uma boa carne com os amigos, e uma área vigiada para carregar dispositivos eletrónicos em segurança.
No geral, a organização deu-nos todas as condições para vivermos o festival sem uma única preocupação logística.
O festival abriu com três concertos gratuitos: No Path, Inhuman Architects e Teething.
Coube aos No Path abrir a noite, e a banda de hardcore lisboeta não desiludiu. A Sala Super Bock começou meio vazia, mas a energia da banda foi puxando o público para junto do palco. Um arranque sólido, que acendeu o rastilho para o resto da noite.
Inhuman Architects, também de Lisboa, encontraram uma sala já mais quente e juntaram-lhe o seu deathcore sinfónico. Houve circle pits logo na primeira música, e o resto foi um dos melhores concertos que vimos em todo o festival (ver ranking no final).
Teething, banda de grindcore espanhola, fecharam a noite e fizeram o rastilho explodir. Foi mosh e circle pits do início ao fim. O próprio vocalista lançou um desafio ao público – um pastel de nata vegan para os dois “más locos” que se atrevessem, não conseguimos identificar quem foram os dois contemplados mas efetivamente eles corresponderam. A banda ainda conseguiu encaixar três músicas num só minuto. Foi, sem margem para dúvida, o melhor concerto da noite, embora tenha beneficiado do terreno já preparado pelas duas bandas anteriores.
A partir de agora, os concertos alternaram entre o Palco Principal e o Palco Super Bock, terminando quase sempre num para arrancar de imediato no outro.
Palco Principal
Abriram Risen Crow, Meden Agan e Leaves’ Eyes; três bandas com um traço em comum: voz feminina em destaque. Das três, Leaves’ Eyes foram quem mais se impôs: com anos de estrada, souberam cativar a plateia e entregaram uma das atuações altas da tarde.
Palco Super Bock
Passaram Butt Splitters, Kimura (que substituiu os Guiltera, que à última da hora, impedidos de viajar até Portugal por questões de visto) e Psycorepaths. Kimura destacaram-se com uma atuação energética e muito interativa (o vocalista chegou a roubar telemóveis ao público para que gravassem a própria performance), enquanto Psycorepaths trouxeram um beatdown hardcore cheio de mosh, daquelas atuações memoráveis do género.
Os cabeças de cartaz
E depois, o “barulho” ficou diferente. Pelas 22h, Swallow the Sun subiram ao Palco Principal e, ao longo de 1h15, hipnotizaram por completo uma plateia que mal se mexia. Os finlandeses de Doom/Death Metal quase não falaram com o público, sinceramente nem precisaram. A atmosfera melancólica que construíram, envolta num espetáculo de luzes que não parava, chegou para deixar toda a gente rendida.
Foi um dos concertos mais memoráveis do festival, e uma masterclass em como comandar um recinto
sem gritar por atenção.
Mal este terminou, e com parte do público ainda a recuperar, os Crucivore entraram no Palco Super Bock. A sala já tinha visto grandes concertos ao longo do dia, mas os Crucivore não se intimidaram, muito pelo contrário, subiram a fasquia. Deathcore lisboeta a querer partir tudo, literalmente, e outra das melhores atuações da noite. A titulo pessoal e de curiosidade tive que colocar uns limitadores de som (que raramente uso) estava alto como um concerto desta magnitude deve estar e este é um excelente elogio á prestação da banda.
Fecharam o dia os Avulsed, espanhóis de Brutal Death Metal com currículo extenso. Ainda assim, foi a atuação mais irregular do dia: entre música e música, houve interrupções longas e, muitas vezes, desnecessárias. Quando tocavam, eram sólidos; nas pausas, perdiam o público. Uma prestação abaixo do que se esperava.
A noite fechou com DJ Darkim a passar clássicos do género para quem ainda não queria ir dormir.
Dia 3 (18 de julho)
O último dia prometia superar os dois anteriores, íamos ter Abbath em palco, e o nome pesou: a organização confirmou nas redes sociais que o dia 19 estava “Sold Out”. As atuações das bandas iam ser na mesma entre Palco Principal e Palco Super Bock.
Palco Principal
Abriram os Viledog, vencedores do Laurus Band Battle, com um thrash metal a lembrar Metallica e Megadeth. Apesar da tenra idade, não se inibiram e surpreenderam pela positiva.
Seguiram-se Godark e Morgu, dois concertões, no sentido literal da palavra. Godark, de Death Metal
Melódico, animou o público ainda com luz do dia, com boa presença de palco e interação genuína com os
espetadores; no final, ficou a vontade de mais uma música.
Morgu não são cabeça de cartaz na edição anterior tocaram no Palco Super Bock, e este ano tiveram a promoção para o Principal, mas deram para nós, o melhor concerto do festival. A banda albanesa de Doom Metal Progressivo prendeu a plateia com uma melancolia e uma atmosfera muito próprias, e cada música terminava com uma salva de palmas bem sentida. Todos os músicos estiveram excelentes, mas foi a voz do vocalista, nos momentos de growling, que mais impressionou, projeção suficiente para chegar bem além do recinto.
Palco Super Bock
Passaram Thorndale e Haunted Mines: o Power Metal dos primeiros não conseguiu realmente chegar ao
público, enquanto o Nu-Metalcore dos segundos resultou numa atuação mais interativa e pujante.
Nenhuma das duas, ainda assim, surpreendeu.
Faemine foi outra das bandas que tínhamos curiosidade em ver pela primeira vez. Entregaram um concerto em crescente, começaram mais contidos e foram ganhando agressividade à medida que o tempo passava. Bom no geral, mas não dos que ficam gravados na memória.
Antes de Abbath, dois shows fortes, um em cada palco. Os Atrocity, também eles cabeça de cartaz desta edição, trouxeram Death Metal já em ambiente noturno, com um jogo de luzes imponente e uma presença de palco quente e rápida, mosh, circle pits, suor e muitos sorrisos. Ficámos a salivar por mais, e esse “mais” veio de imediato.
Os Grog, portugueses de Grindcore, pegaram exatamente onde os Atrocity tinham parado e subiram ainda mais o caos. No Palco Super Bock que era uma sala pequena, lotada e a ferver, entregaram outra das performances memoráveis desta edição.
Abbath
Faltava o momento do dia, arrisco dizer, do festival. A expetativa era enorme, ajudada por um cartaz gigante espalhado pelo recinto: “For those Abbath to Rock! We Salute You!”, um trocadilho bem conseguido com o álbum dos AC/DC For Those About to Rock We Salute You. A peça tornou-se viral nas redes sociais ainda antes do concerto começar.
Pelas 00h10, os Abbath subiram ao palco. E que concerto. Do início ao fim, a banda prendeu a audiência com uma energia que dificilmente se esperaria de um dos veteranos do cartaz. Abbath tocou e cantou em simultâneo sem perder qualidade em nenhuma das duas frentes, com solos de guitarra que só confirmaram porque é uma referência incontornável do género. A interação com o público, marcada por um à-vontade quase cómico e um carisma contagiante, criou uma ligação imediata com a plateia. A resposta foi avassaladora, com mosh pits e headbanging constantes do primeiro ao último minuto, numa demonstração clara da energia e cumplicidade geradas durante toda a atuação.
Um encerramento à altura do nome, e, sem dúvida, um dos momentos mais altos desta edição do Laurus
Nobilis.
A festa esticou-se por mais umas horas com o DJ Darkim de volta ao Palco Super Bock, para quem ainda não estava pronto para esperar mais um ano pela próxima edição.
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