Reviews de Shows

Panzerfaust – ANZV – RCA Club, Lisboa

Névoa, intensidade ritualista e Black Metal.


A estreia dos canadianos Panzerfaust em Lisboa não começou da forma mais fácil. Uma greve aérea em Barcelona obrigou ao adiamento do concerto por 24 horas, originalmente previsto para Leiria. Mas nada disso travou o ímpeto da noite; apenas o tornou mais denso, mais carregado de expectativa.

ANZV


Os ANZV abriram as hostilidades com o ritual que já é marca da casa. Vieram novamente apresentar KUR, a invocação mais recente, e lembraram por que razão são uma das bandas portuguesas mais singulares dentro do espectro oculto do metal. Um altar de velas acesas, um cálice, uma bruma espessa que nos envolve durante toda a atuação, o misticismo mesopotâmico em pano de fundo, e Ahnum, no centro de tudo, a comandar a cerimónia com cânticos que oscilavam entre o filosófico e o xamânico.


Com Ekur, os ANZV iniciaram a procissão que, ao longo da hora seguinte, envolveu os presentes em melodias introspectivas. Num momento particularmente intenso, durante Shamash, Ahnum desceu do palco e posicionou-se entre o público, criando um instante de verdadeira comunhão. Foi um ritual de ligação e presença. Os ANZV merecem ser experienciados ao vivo, e esperemos que nos tragam mais rituais em breve.

Panzerfaust


Depois, Panzerfaust tomaram o palco. Besuntados em lama, como saídos das trincheiras do inferno, despejaram uma hora de Black/Death Metal sem concessões. O foco recaiu na monumental série The Suns of Perdition, uma saga iniciada em 2019 e continuada com Chapter IV: To Shadow Zion (2024), que mergulha nos horrores da guerra e na rejeição dogmática da fé. Desde o primeiro tema, The Day After Trinity, sentiu-se o impacto na sala. Cada blast beat, cada riff dissonante, soava como um eco de fogo e lama. Com Goliath e Brock Van Dijk (guitarrista e vocalista) a trocarem berros atormentados, a banda projetou uma presença avassaladora, um equilíbrio entre poder, ritual e disciplina. Apesar de não haver mosh, a dissonância reverberou pela sala e foi sentida em cada corpo.


No RCA, a névoa era espessa, o volume opressivo e a entrega total. Foi, sem dúvida, um concerto intenso, cerimonial e devastador, como se o fim do mundo estivesse próximo e Lisboa tivesse sido escolhida para mais uma das suas revelações.

Francisco Moura

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